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As condições materiais
Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove. O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias. Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros. E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido. Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto. Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala…
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O hábito
Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça. Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima. A resposta óbvia é que a experiência ensinou. E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma. Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela…
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Todos disseram a mesma coisa
Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez. No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico. No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico. No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente. Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si. E a mesma frase no…
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Nem tese nem antítese
Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese. Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive. Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso. Continuo achando isso verdadeiro. Só que a tríade não é de Hegel. Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por…
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O que a síntese não conta
Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970. Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes. Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado. O que aconteceu foi o seguinte. Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.…
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Por que ninguém lavou as mãos
Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…
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Construção não quer dizer invenção
Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…
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A mesma sala, dois relatórios
Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe. Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia. Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração. Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença. No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar…
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Um diálogo sem diálogo
Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala. O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso. Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham. É por essa cena que o livro é lembrado. E eu…
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O bloco
Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes. Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses: Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls. Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro. E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento. Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são…




























