Filosofia & Teologia

O que a síntese não conta

Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970.

Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes.

Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado.

O que aconteceu foi o seguinte.

Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.

Depois ele anotou as placas dos carros dos homens.

Usou um contato na polícia para obter, a partir das placas, os endereços residenciais.

Cerca de um ano depois, mudou a aparência, incluiu aqueles homens na amostra de uma pesquisa de saúde que conduzia, e foi entrevistá-los em casa, diante das famílias, sem que soubessem quem ele era nem de onde os conhecia.

A maioria era casada. Muitos tinham filhos. Nos Estados Unidos dos anos sessenta, aquilo significava prisão, demissão e destruição de família.

Humphreys construiu uma lista com nomes e endereços de homens cuja exposição os arruinaria.

Ele guardou os dados com cuidado e ninguém foi exposto. Mas a lista existiu, e ele a produziu enganando a polícia, enganando os pesquisados e entrando na casa deles.

É por isso que o caso está em todo manual de ética em pesquisa, e é uma das razões pelas quais existem comitês de ética hoje.

Eu escrevi que era controverso.

E o mais interessante é como isso acontece, porque não foi má-fé nem preguiça.

Aquele estudo tem méritos reais. Ele mostrou que a maioria dos homens envolvidos levava vida heterossexual pública, o que desmontava estereótipos correntes na época. Descreveu com precisão um sistema de sinais não verbais. É citado até hoje por razões legítimas.

E é exatamente por ter mérito que a omissão passa.

Quando um trabalho contribui de fato, a tentação é registrar a contribuição e mencionar o problema numa oração subordinada. Foi o que eu fiz: uma frase sobre questões éticas, no penúltimo parágrafo, e segui elogiando.

Isso não é resumir. É absolver.

E há uma consequência prática para qualquer área.

Todo campo tem o seu caso Humphreys: um trabalho que produziu conhecimento real por meios que não se deveriam repetir. A maneira de lidar com ele não é apagar nem canonizar.

É contar inteiro, e deixar o leitor decidir o que fazer com as duas metades.

Foi o que eu não fiz.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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