• Pólis & Gestão

    Pesquisar onde se tem poder

    No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental. É o lugar onde eu trabalho. E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição. Escrevi que entrevistaria estudantes. Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do…

  • Filosofia & Teologia

    A defesa que entrega o jogo

    Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…

  • Artes & Narrativas

    Quando a técnica esconde

    Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação. Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte. Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema. Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra. É um truque antigo e não…

  • Educação & Cuidado

    O nome que falta

    Num trabalho de licenciatura, discorri sobre interseccionalidade ao longo de várias páginas, apoiado numa única autora brasileira que resumia o conceito. Escrevi que a interseccionalidade é uma ferramenta criada para identificar o racismo. Está pela metade, e a metade que falta é justamente a que dá nome à coisa. O termo foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, jurista negra estadunidense, num artigo sobre um caso concreto. Trabalhadoras negras processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou o caso em dois eixos separados. Para discriminação racial, olhou os homens negros da empresa, que estavam empregados. Para discriminação de gênero, olhou as mulheres brancas, que também estavam. E…

  • Filosofia & Teologia

    Onde as palavras foram gastas

    Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses. A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele. A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime. Continuo achando que as duas estão certas. Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça. Nada disso…

  • Educação & Cuidado

    O nome do goleiro

    Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol. Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição. Reli o trabalho agora. O nome do goleiro não aparece uma única vez. Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”. O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha. Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o…

  • Filosofia & Teologia

    As perguntas certas

    A busca pela sabedoria não é um privilégio aristocrático, mas um direito de nascença. Ao contrário do conhecimento superficial, que apenas acumula dados, a sabedoria é a luz que decodifica o propósito. Ao persegui-la, encontramos não apenas respostas apaziguadoras, mas as perguntas certas e a coragem de vivê-las. Nesse processo, as ideias surgem como os veículos que materializam o espírito. São a ponte entre o invisível e o tangível. Cada ideia que nos assalta é uma semente de transformação, a matéria-prima através da qual a alma decide intervir e moldar o mundo físico. Mas ideias soltas dissipam-se no ar se não estiverem presas a uma missão. Descobrir esse propósito não…

  • Filosofia & Teologia

    Arranhar a superfície

    A vontade é uma chama interior que anseia obstinadamente por algo além de si mesma. Recusando-se a capitular diante do transitório, ela persegue a profundidade: é uma fome feroz por aquilo que é essencial. Quando o nosso querer se alinha ao bem, ele é inundado por um amor que atua como bússola. Não se trata de um espasmo emocional nem de um afeto passageiro, mas de um impulso que aspira à verdade contida nesse bem. O amor converte-se, assim, na argamassa que sustenta a escolha e a torna autêntica. E quando esse amor colide com as pessoas, ele não se contenta em arranhar a superfície. Ele perfura. Apresenta-se como presença…

  • Filosofia & Teologia

    Fogo consumidor

    Há uma crença popular de que Deus é incapaz de odiar, que a Sua essência se resume a um afeto inofensivo, tornando qualquer repulsa incompatível com a Sua natureza. Essa percepção é teologicamente frágil. Deus abomina tudo aquilo que entra em atrito com a Sua pureza, e o mistério do amor e da ira divina está justamente nessa justiça. O amor de Deus, para ser autêntico e não mera permissividade, exige o equilíbrio da Sua santidade. As Escrituras ensinam que o Criador é amor, e também que é fogo consumidor (Hebreus 12:29). Nenhuma dessas características anula a outra: coexistem, formando o todo de quem Ele é. Deus não faz concessões…

  • Filosofia & Teologia

    Rascunhos de nós mesmos

    Desbravar a existência é um ofício reservado aos corajosos, àqueles que se dispõem a tatear as margens do desconhecido com o peito desarmado. Viver não pode ser reduzido a um reflexo mecânico de passos automáticos e agendas cumpridas. É uma travessia irretornável. E, no meio dessa travessia, esbarramos naquilo que somos, ou naquilo que nos convencemos ser. Fugimos da realidade construindo um exílio autoimposto, uma fuga anestésica que nos treina para ter pavor da verdade. Nós a procuramos, sim, mas trememos diante do que ela pode desenterrar. Caminhando como rascunhos de nós mesmos, carregamos a dúvida em estado latente: o que, afinal, estamos sendo? Será que esse eu que apresentamos…