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Talvez possa ser caracterizado
Um menino saiu da biblioteca porque uma menina e dois meninos ficaram zoando o desenho que ele havia feito. Foi isso que aconteceu, e eu vi. E foi assim que eu registrei no meu diário de estágio: Nesta aula presenciei um momento que talvez possa ser caracterizado como bullying. Talvez. Possa. Ser caracterizado. Três atenuações numa frase de doze palavras, para descrever uma criança abandonando uma sala porque outras três riram do trabalho dela. Eu sei de onde vem esse jeito de escrever. Sou servidor público há quase vinte anos e instruo processos. Aprendi, por ofício, que caracterizar errado tem consequência, que adjetivo em documento vira prova, e que quem…
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As linhas do meu rosto
Para preparar um monólogo, precisei estudar maquiagem teatral. E o exercício começava assim: observar as linhas do ator. No caso, eu mesmo. Então sentei diante do espelho e olhei o meu rosto com atenção técnica, procurando onde ele tem estrutura. As laterais da testa. As maçãs. A linha do maxilar. A curvatura da testa. Os cantos dos olhos. Depois apliquei uma base do tom da minha pele, com uma esponja de louça mesmo, porque o orçamento não dava para mais. Sombra clara nas linhas naturais. Sombra escura para dar dimensão ao nariz. Traços pretos realçando o contorno. Lápis rente aos cílios e às sobrancelhas para destacar o olhar. Fiz o…
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O relógio
Sobre 2008 e 2009. Eu estava ansioso. Depois daquele domingo, entendi que o problema era eu. A roupa, o cabelo, o jeito de falar. Se era isso, era isso que eu tinha que resolver. Comprei um relógio caro que não precisava comprar. Comprei na Amazon, que na época era só a americana, ainda não havia a brasileira. Um relógio suíço. Na foto ele parecia grande. Quando chegou, era pequeno, parecido com relógio feminino. Comprei outro, da mesma marca, grande. Esse ficou parado na alfândega. A UPS me mandou uma mensagem. Paguei oitocentos reais de imposto para resgatar o relógio. Achava que com aquele relógio as pessoas iriam olhar para mim.…
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Eu acreditei
Estive em uma relação que eu pensava ser amizade. Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade. Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte. Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro…
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Talismãs
Houve um tempo em que a esperança parecia caber em uma trama de algodão egípcio. Olhar para aquela camisa branca pendurada era, para mim, como contemplar um estandarte de guerra, uma armadura tecida com a promessa de que eu, finalmente, seria alguém digno de ser amado. É ela, pensei, é ela que me fará conquistá-la. Naquela época, eu não comprava roupas. Eu comprava talismãs para esconder a minha própria nudez existencial. O preço daquela ilusão foi obsceno. Uma transação que ignorava a lógica e o salário, alimentando-se apenas da minha urgência em pertencer. O relógio suíço, que cruzou o oceano como se trouxesse consigo uma nova era, ficou retido na…
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Invisível no mérito
Ser reduzido ao descrédito e sistematicamente desautorizado em um espaço onde a dignidade deveria ser a regra básica é uma das experiências mais corrosivas para a alma humana. Imagine um jovem de vinte anos cruzando a porta do seu primeiro emprego, ansioso para contribuir e pertencer. O que o aguarda é um moedor de carne. As chefias decidem enxergá-lo não pelo seu potencial, mas através de preconceitos velados. A sua juventude e a cor da sua pele transformam-se, aos olhos delas, em alvos convenientes. Nessa engrenagem, a humilhação é o relógio que dita a rotina. Cada olhar é um veredito, cada gesto uma invalidação. Ele é tornado invisível no seu…
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Autoridade de crachá
Nas relações institucionais marcadas por forte assimetria de poder, surgem dinâmicas que subvertem o propósito central da gestão. Quando um chefe opta por desvalorizar o trabalho de um subordinado em público, o ato revela infinitamente mais sobre o caráter de quem fala do que sobre a competência de quem ouve. Não é um deslize de comunicação: é o reflexo de como a autoridade, quando desprovida de ética, converte-se em ferramenta de manipulação. As relações de trabalho intensificam a vulnerabilidade das pessoas, porque colocam em jogo a autoimagem, o respeito e a sobrevivência profissional. E quando um chefe se permite ridicularizar alguém sob a bandeira da transparência, ele aciona uma das…
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Um fruto deixado no escuro
A destruição de uma vida é de uma facilidade aterradora e, simultaneamente, de uma devastação absoluta. Basta conceder a primeira fresta para que a falha se infiltre, permitindo que as suas raízes asfixiem a terra fértil do coração. O pecado é uma praga silenciosa que prospera nas rachaduras da alma, expandindo o seu território com lentidão e frieza. E, por mais que eu lute, sinto essa presença muito mais perto do que a minha vaidade gostaria de admitir. Existe um pavor paralisante na decisão de trazer isso à luz. Expor quem somos nos bastidores é despir a alma e apresentar as feridas que tentamos maquiar. A confissão é um ato…
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O odor de um erro exposto
Escrito em 2012. O pecado opera como um patógeno silencioso, alastrando-se pelas sombras e corroendo as nossas fundações de dentro para fora. Não é a biografia que desejo assinar, nem a rota que escolho conscientemente trilhar, mas, ainda assim, eu caio. Essa é uma verdade desconcertante, uma contradição humilhante que assombra o espírito e esmaga os ombros. Houve um tempo em que a jornada tinha um sabor doce, mas hoje o paladar carrega um amargor implacável. Precisei vomitar a transgressão que guardava, como quem finalmente expurga a podridão acumulada nos porões do próprio ser. Houve, confesso, um alívio momentâneo, a sensação de frescor de quem, após quase asfixiar-se, volta a…


























