• Uncategorized

    A árvore de papelão

    Para montar o cenário de uma peça, os alunos foram até o supermercado ao lado do campus pedir caixas de papelão. Voltaram com o material e começaram a recortar duas colunas e uma árvore. Enquanto pintava, uma das estudantes contou o que estava pensando. Disse que imaginou aquela árvore como se fosse ela mesma. Que sentiu como se estivesse saindo de si e entrando num filme, e voltando logo em seguida. Disse que imaginou a própria vida como aquele papelão sendo recortado, sendo moldada. Ela tem quinze anos. Fico com essa cena por dois motivos. O primeiro é o papelão. Aquela peça não teve orçamento. O cenário saiu de caixas…

  • Educação & Cuidado

    Ouvir o próprio pé

    Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala. Depois, um deles contou o que tinha acontecido. Disse que ouviu o próprio pé. Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho. Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas. E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala…

  • Educação & Cuidado

    Dois minutos de Romeu e Julieta

    Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho. O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar. Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu. E aí veio a greve. Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação…

  • Filosofia & Teologia

    O cientista e a cobaia

    Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não. Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias. Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo…

  • Artes & Narrativas

    A luta entre a voz e o corpo

    Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…

  • Educação & Cuidado

    A porta do recomeço

    Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam…

  • Artes & Narrativas

    Ele foi legião

    Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…

  • Filosofia & Teologia

    Personagens de ventríloquo

    A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano: aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce e venenosa promessa de aprovação. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil, porque são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo. As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro. Você precisa ser mais descolado. Essa roupa é brega, vista-se melhor. Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa. Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a tesoura…

  • Artes & Narrativas

    Spagnal

    Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…

  • Artes & Narrativas

    O padeiro demitido

    Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…