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Onde se registra o primeiro choro
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do quase. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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Planilhamos os nossos afetos
A chuva espancava a janela com uma cadência que emulava o compasso de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas aquele objeto frio que repousa…
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Enquanto houver poeira
Vinte anos. Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como uma escada escura. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo. Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus cadernos de memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do silício. Enquanto a…
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O caixote
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não…
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Eu estudei o relógio de ponto
Em 2020 eu defendi um mestrado em Gestão Pública. O objeto era o módulo de registro eletrônico de frequência implantado no sistema de recursos humanos do instituto federal onde trabalho. O ponto eletrônico dos servidores. A pergunta era como os fatores psicossociais influenciavam a intenção de uso daquele sistema. Apliquei um questionário a 446 servidores, usei modelagem de equações estruturais e testei onze hipóteses sobre atitude, autoeficácia e ansiedade. Hoje eu escrevo um doutorado sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Levei seis anos para perceber que é o mesmo assunto, e que eu mudei de lado. O relógio de ponto é a racionalização na forma mais pura que existe.…
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Analisar o poder de dentro dele
Propus, num projeto de pesquisa, analisar como as decisões são tomadas no instituto federal onde trabalho, e como o poder é distribuído entre os agentes da instituição. É um bom objeto. Poucas coisas importam mais numa organização pública do que saber quem decide de fato, e quase ninguém pesquisa isso por dentro. Reli o documento e ele não analisa poder nenhum. O que ele faz é elogiar. A instituição é descrita como renomada, que aparece três vezes. O plano de desenvolvimento institucional é apresentado como instrumento que garante que o poder seja exercido de acordo com as necessidades e objetivos da instituição. As políticas educacionais promovem educação inclusiva, igualdade de…
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O fogo pelo avesso
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado e, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta: para que o…
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Quem carrega o piano
A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção:…
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O Departamento de Medição do Progresso
O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o progresso técnico reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…
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Foucault virado do avesso
Escrevi um projeto de pesquisa sobre distribuição de poder no instituto federal onde trabalho, e usei Michel Foucault como referencial teórico. Reli e encontrei frases como estas. Que as técnicas de si são incorporadas de maneira transversal no plano de desenvolvimento institucional. Que o plano define as práticas e técnicas que moldam o comportamento dos estudantes, promovendo a autonomia e a responsabilidade de cada membro. Que a subjetividade dos estudantes é moldada pelas interações educacionais, enquadrando-a dentro de parâmetros desejados que visam à formação de profissionais capacitados. Que essas técnicas de poder são aplicadas para garantir a efetivação das políticas estabelecidas. Tudo isso escrito em tom aprovador. E aqui está…




























