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Uma senhora toma chá
Usei, num artigo sobre a invisibilidade das contribuições femininas, o livro de David Salsburg que se chama Uma Senhora Toma Chá. Escrevi que Salsburg narra a história de uma mulher cujas observações simples e rigorosas resultaram em avanços significativos para a estatística moderna, e que foram desconsideradas por causa do gênero dela. Não foi bem isso, e a história verdadeira serve melhor ao meu argumento. O episódio é dos anos vinte, em Cambridge. Numa reunião com chá, uma mulher afirmou que conseguia distinguir se o leite tinha sido colocado antes ou depois do chá na xícara. Os homens presentes acharam graça. Um deles, Ronald Fisher, não achou. Propôs testar: preparou…
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Interseccionalidade sem brasileiras
Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…
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Aritmética impossível
Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas conhecer é…
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Crawford
Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão. O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo. E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam. No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991. Na lista de referências, está escrito assim: CRAWFORD, Kimberlé. O título do artigo dela está certo. A revista está certa.…
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Aprendi a escutar
Numa autoavaliação de disciplina, escrevi que desenvolvi habilidades de escuta atenta e que aprendi a cultivar a empatia. Eu tinha trinta e oito anos. Fazia mais de vinte que eu pregava, o que significa ficar semanalmente diante de gente que chega com alguma coisa quebrada e espera que você diga algo que sirva. Fazia mais de dez que eu trabalhava com assistência estudantil, recebendo adolescentes que sentam na cadeira e contam coisas que não contaram a mais ninguém. E escrevi, num formulário de licenciatura, que naquele semestre eu havia aprendido a escutar. Não é mentira. É pior: é a resposta que o formulário exige. A pergunta era “quais saberes eu…
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A autoavaliação que não avalia
Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença. Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade. A outra não diz absolutamente nada. A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar. E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado. A…
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Um projeto sobre cotas sem cotistas
Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco. Eram quatro. Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política. Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais. Nenhum deles menciona os estudantes. O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas…
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O nome que sumiu
Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade. E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior. Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes. Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios. Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece. Mas repare no que aconteceu, exatamente. Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões…
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Qual parte é arbitrária
Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras. Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias? Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim? Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome. Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.…
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Duzentos anos depois, a mesma pergunta
Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…



























