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Depois do diagnóstico
A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída. O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira. Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto. Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele. Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando…
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A razão instrumental no púlpito
Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…
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Um resumo sem autor
Reli, de uma vez, todos os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia e ciências sociais. Aristóteles, Kant, Descartes, Hume, Hegel, Nietzsche, Marx e Engels, Fourez, Hempel, Humphreys, Diderot. Onze textos. Dezenas de páginas. E em nenhuma delas eu apareço. Não há uma frase em que eu diga que discordo. Não há um parágrafo em que eu ligue o que li a alguma coisa que vi. Não há uma pergunta minha. Não há sequer um registro de dificuldade, do tipo “não entendi esta passagem” ou “isto me parece frágil”. Onze autores, e o leitor daqueles resumos não consegue saber se quem os escreveu é ateu ou pastor, tem vinte…
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As condições materiais
Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove. O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias. Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros. E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido. Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto. Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala…
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O gamão
Escrevi que Hume tem uma moral provisória. Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro. E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso. O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve? Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente. É…
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O hábito
Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça. Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima. A resposta óbvia é que a experiência ensinou. E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma. Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela…
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Todos disseram a mesma coisa
Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez. No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico. No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico. No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente. Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si. E a mesma frase no…
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Nem tese nem antítese
Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese. Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive. Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso. Continuo achando isso verdadeiro. Só que a tríade não é de Hegel. Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por…
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A África fora da história
Resumi a Filosofia da História de Hegel para uma disciplina. Escrevi sobre o Geist, sobre o espírito do mundo, sobre a marcha da liberdade, sobre totalidade. Não escrevi uma linha sobre a parte que qualquer leitor brasileiro deveria encontrar primeiro. Na introdução daquele livro, Hegel exclui a África da história. Não é uma passagem lateral nem um deslize de época recuperável por contexto. É estrutura. Ele afirma que a África não é parte histórica do mundo, que não apresenta movimento nem desenvolvimento a exibir, e que por isso deve ser deixada de fora da consideração. Descreve os africanos em termos que são racistas de forma direta, e segue adiante. Ele…
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Não por falta de entendimento
Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. E acrescenta uma cláusula que muda tudo. Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia. Não é burrice. É medo. Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento. Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada. Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata…

























