• Artes & Narrativas

    Eles se afastam lentamente

    Escrevi uma cena de reencontro. Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou. E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros. Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos. A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.…

  • Artes & Narrativas

    Deixar o outro ter razão

    A coisa mais corajosa que Diderot fez em O Sobrinho de Rameau não foi criticar a sociedade francesa. Foi perder a discussão. O diálogo tem dois participantes. De um lado, o filósofo, que representa o próprio autor: sensato, moral, defensor da virtude. Do outro, o sobrinho: parasita, bajulador profissional, alguém que come na mesa dos ricos e paga divertindo-os, e que admite tudo isso sem constrangimento. O filósofo deveria vencer. É ele quem tem razão pelas regras que qualquer leitor traz de casa. E não vence. O sobrinho é mais vivo, mais engraçado, mais honesto sobre a própria degradação, e várias vezes mais lúcido a respeito de como o mundo…

  • Filosofia & Teologia

    Um diálogo sem diálogo

    Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala. O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso. Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham. É por essa cena que o livro é lembrado. E eu…

  • Artes & Narrativas

    Dois personagens, um homem

    Escrevi uma cena de teatro com dois personagens que se reencontram numa biblioteca, depois de muitos anos. Fiz o perfil dos dois, com idade, aparência, história, personalidade, hobbies, figurino e maquiagem. E só agora, relendo, percebo que dividi a mim mesmo em duas pessoas. Matheus tem trinta e quatro anos. É reservado e introspectivo, o que contrasta com a vivacidade da juventude dele. Foi o garoto de ouro da cidade: bom aluno, atleta, carismático. Depois de uma perda, passou anos tentando preencher o vazio com diversos hobbies e carreiras. Formou-se em engenharia, mas a paixão verdadeira sempre foi a carpintaria, aprendida com o avô. Usa no pulso um relógio de…

  • Filosofia & Teologia

    O bloco

    Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes. Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses: Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls. Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro. E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento. Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são…

  • Artes & Narrativas

    Quem é nós

    Reli o projeto do meu último estágio e reparei numa coisa que eu não tinha visto. Ele começa em primeira pessoa do singular. Pretendo desenvolver. Pretendo trabalhar. Realizarei oficinas. E no meio do quarto parágrafo, sem aviso, vira plural. Planejamos promover. Acreditamos que o teatro possui o poder. Esperamos contribuir. Nos permite unir a prática teatral com a educação, alinhando nossa vocação artística com a responsabilidade social. Não havia equipe. Não havia coautor. Era um estagiário sozinho, escrevendo um projeto sobre oficinas que ele daria sozinho. Quem é nós? Ninguém. É o plural dos documentos, e ele aparece exatamente onde o texto começa a afirmar coisas grandes. Repare na distribuição.…

  • Educação & Cuidado

    Em parceria com uma instituição religiosa

    No projeto do meu último estágio de licenciatura, escrevi que pretendia trabalhar em parceria com uma instituição religiosa que promove atividades educativas extracurriculares para crianças em vulnerabilidade social. Instituição religiosa. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos. Conheço aquele lugar por dentro, sei o nome das crianças, sei quem levou cada uma delas e sei quais famílias não têm o que a gente supõe que toda família tem. E escrevi “em parceria com uma instituição religiosa”, como quem descreve um parceiro externo cujo nome ainda está sendo negociado. Não foi disfarce. Foi obediência ao formulário. Projeto de estágio pede campo, e campo, na gramática acadêmica, é um…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor lendo Nietzsche

    Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…

  • Artes & Narrativas

    A porta ficou de fora

    No croqui de cenário que desenhei para um trabalho, há um elemento que eu descrevi e não desenhei. Escrevi assim: nos lados, um possível sofá à esquerda e provavelmente uma porta à direita. E depois expliquei a ausência: a porta como entrada e saída, ainda a se pensar, por isso não coloquei no desenho principal. Ainda a se pensar. Dos oito elementos daquela sala, a porta é o único que ficou fora do papel. As estantes eu desenhei. A janela, com o raio e o vento, eu desenhei. A mesa com os livros abertos, o candelabro, a xícara, a garrafa de tinta com pena, o sofá com a luz dourada:…

  • Pólis & Gestão

    Pesquisar onde se tem poder

    No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental. É o lugar onde eu trabalho. E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição. Escrevi que entrevistaria estudantes. Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do…