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Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…
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Orvalhos de conteúdo
Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma. Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes. Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada. O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas. Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados.…
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A defesa que entrega o jogo
Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…
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O livro que ficou na bibliografia
Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência. Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto. É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções. Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez. Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é. Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que…
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Quando a técnica esconde
Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação. Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte. Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema. Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra. É um truque antigo e não…
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Pontos fracos em seu percurso
O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…
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O corredor
Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…
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O prédio que era da medicina
A Escola Viva de São Pedro funciona nas antigas instalações do Campus II da FAESA. A FAESA foi a maior faculdade privada do Espírito Santo, e o Campus II abrigava os cursos da área da saúde. Quando a instituição desocupou o espaço, o Estado aproveitou parte dele para instalar uma escola pública de tempo integral. Anotei isso no meu diário de estágio, em 2022, dentro de um item que eu havia chamado de observações estéticas. Escrevi que as instalações eram dignas de espaço de ensino superior. Escrevi sobre a vista panorâmica para a baía de Vitória, sobre a circulação de ar, sobre o amplo estacionamento, a quadra poliesportiva e o…
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Tenho como provar
Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase: Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas. Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso. E ainda assim eu ofereci provas. Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede…
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Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…



























