• Artes & Narrativas

    Velocidades diferentes

    Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…

  • Filosofia & Teologia

    A metodologia comporta o desejo

    Num relatório de estágio, entre uma consideração sobre jogos teatrais e outra sobre cultura local, eu escrevi a tese central de tudo o que viria a pesquisar depois. Está assim: A metodologia é uma invenção que cria limites para que o aluno possa chegar onde o professor deseja que ele chegue. A metodologia comporta dentro de si mesma o desejo. Ela em si é crua e seca, mas há um sentimento pulsante dentro dela, pois deseja levar a experiência a um determinado lugar, em busca de um resultado já conhecido. E completei, na sequência: a metodologia não permite a construção do novo, apenas uma inovação. Permite aperfeiçoamento, mas não criação.…

  • Educação & Cuidado

    Brincar dando aula

    A peça do dia 13 de dezembro não aconteceu. As aulas aconteceram. Depois de todos os entraves, das assinaturas que não vinham, das quarenta e cinco horas exigidas e das dez oferecidas, do trimestre que não batia com o semestre e da negociação para entrar dentro da unidade de dança, eu finalmente entrei numa sala de aula como professor de teatro. E foi assim que registrei, no relatório final: Foi possível brincar dando aula e dar aula brincando. É a melhor frase de tudo o que escrevi naquele ano. E é a única que não descreve um problema. Trabalhei com os jogos teatrais de Viola Spolin, adaptados. E, pela primeira…

  • Educação & Cuidado

    Além do utilitário

    Num comentário de disciplina, escrito às pressas depois de assistir a um vídeo de Ana Mae Barbosa, eu formulei sem perceber o problema que viria a estudar pelo resto da vida. A frase está lá, no fim do parágrafo, precedida de dois pontos: Este é o desafio do meu estágio: levar o aluno a reconhecer a beleza da arte, além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. A perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. Eu tinha trinta e sete anos, estava no meio de uma licenciatura a distância e comentava um vídeo obrigatório. E nomeei, em oito palavras, o adversário. Não era uma abstração. Eu tinha acabado de encontrá-lo, em…

  • Filosofia & Teologia

    Contaminação

    Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito. Contaminação. No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está. A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e…

  • Pólis & Gestão

    A assinatura

    Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes. Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero. Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam. E aí veio o pior. O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o…

  • Pólis & Gestão

    Quarenta e cinco horas

    A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência. O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma. Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos. Dez horas. Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis. Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta. Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum. Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um…

  • Educação & Cuidado

    Congo

    O problema parecia insolúvel, e era de calendário. A escola dividia o ano em três trimestres. Artes visuais no primeiro, música no segundo, dança e teatro no terceiro. E o terceiro trimestre terminava em dezembro. O meu estágio de regência terminava em setembro. Ou seja: um estudante de licenciatura em Teatro faria o seu estágio de docência numa escola onde o teatro só aconteceria depois que ele fosse embora. Propus ao professor adiantar a unidade de teatro e deixar a dança para depois. Ele não ficou à vontade com a sugestão e manteve o planejamento dele, o que era direito dele. E eu fiquei com um plano de regência sem…

  • Educação & Cuidado

    Quinze a vinte minutos

    A última frase do meu relatório de estágio dois é esta: Observei que a retenção de atuação das turmas é de quinze a vinte minutos por aula. Neste sentido trabalharei dentro desta perspectiva. Vinte e nove palavras, e elas registram a única coisa que eu de fato aprendi naquele ano. Meses antes, no primeiro estágio, eu havia escrito sobre a mesma turma que os alunos não conseguiam ficar sentados dez minutos e que aquilo era uma característica comportamental que deveria ser trabalhada. Trabalhada em quem, eu não disse. Mas a frase deixava claro: o problema estava neles, e a solução era corrigi-los. E aí, no relatório seguinte, sem nenhum anúncio,…

  • Educação & Cuidado

    13 de dezembro

    O cronograma tinha cinquenta linhas e a última dizia isto: Aula 50, 13 de dezembro de 2022, apresentação da peça. Antes dela vinham quatro ensaios gerais. Antes dos ensaios, o jogo de luz, o figurino e o cenário. Antes disso, seis meses de corpo, voz, improviso e roteiro. E, na primeira linha, um café. A peça não aconteceu, e as razões são três. O calendário acadêmico não comportou o evento. O professor da disciplina não demonstrou interesse. E não havia nenhum aluno empolgado com a ideia. A terceira é a mais difícil de escrever e é a única que eu já sabia. Eu tinha entrevistado aqueles alunos meses antes. Perguntei…