Educação & Cuidado

Congo

O problema parecia insolúvel, e era de calendário.

A escola dividia o ano em três trimestres. Artes visuais no primeiro, música no segundo, dança e teatro no terceiro. E o terceiro trimestre terminava em dezembro.

O meu estágio de regência terminava em setembro.

Ou seja: um estudante de licenciatura em Teatro faria o seu estágio de docência numa escola onde o teatro só aconteceria depois que ele fosse embora.

Propus ao professor adiantar a unidade de teatro e deixar a dança para depois. Ele não ficou à vontade com a sugestão e manteve o planejamento dele, o que era direito dele.

E eu fiquei com um plano de regência sem lugar onde acontecer.

A saída veio de fora, numa aula presencial no polo, em 27 de agosto. O professor Jonas Sales ouviu o impasse e sugeriu uma coisa simples que eu não tinha pensado: em vez de disputar espaço com a dança, entrar dentro dela. Propor uma unidade interdisciplinar de dança e teatro.

Levei a proposta na segunda-feira seguinte. O professor gostou.

E aí eu tive que decidir o que colocar dentro daquela porta que se abriu.

Escolhi trabalhar movimento a partir dos jogos de Viola Spolin e de Augusto Boal, e escolhi ancorar tudo numa forma específica.

O Congo.

Congo é a manifestação afro-capixaba mais nossa que existe: casaca, tambor, canto, cortejo. Está nas comunidades do Espírito Santo há séculos, e a maioria dos adolescentes que estuda nas escolas deste estado sabe que existe sem nunca ter feito.

Escrevi no relatório que escolhi o Congo porque abarca a perspectiva de cultura local.

É verdade, e é pouco.

Aqueles alunos moram na Grande São Pedro. No mesmo relatório eu havia registrado que a escola está dentro daquele bairro e não participa dele, que não leva a escola até a comunidade nem traz a comunidade para dentro, e que não existe parceria com instituição nenhuma.

Trazer o Congo para dentro daquela sala era, na prática, a única coisa que eu tinha nas mãos para atravessar aquele muro.

Não era projeto de extensão, não era parceria formal, não era política pública. Era um estagiário com dez horas de regência propondo que meninos e meninas de treze anos trabalhassem corpo e voz a partir de uma forma que os avós deles conhecem.

Hoje eu coordeno, no meu campus, o núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas.

E vejo que aquela escolha de 2022, feita por impasse de calendário e resolvida com uma sugestão dada por outro professor numa tarde de agosto, era a mesma coisa que eu faço agora.

Às vezes a vocação chega assim: como a única saída disponível para um problema logístico.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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