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As condições materiais
Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove. O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias. Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros. E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido. Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto. Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala…
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Dez minutos
No meu diário de estágio, em 2022, escrevi o seguinte sobre a turma que eu observava: Na sala de aula a maioria dos alunos se levanta da cadeira. Não conseguem ficar sentados por dez minutos sem se levantar, nem que seja para não fazer nada e sentar novamente. A observação está certa. Foi o que eu vi, várias vezes, durante semanas. Anotei também que o professor concentrava a parte teórica sempre no início da aula, e supus o motivo: os alunos não conseguiam prestar atenção por muito tempo. Anotei que nos momentos teóricos eles perdiam a atenção com facilidade, que conversavam muito, que o professor avaliava mais o aspecto prático.…
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Todos os homens desejam conhecer
A Metafísica de Aristóteles começa com uma das frases mais famosas já escritas: Todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Não é uma exortação. É uma afirmação factual sobre a espécie. Ele a apoia no prazer que temos com os sentidos, sobretudo com a visão, que buscamos mesmo quando não vai servir para nada. Li isso e resumi para uma disciplina. E, um ano antes, eu havia entrevistado uma turma de sétimo ano numa escola pública de periferia. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Responderam que não consideravam importante. Anotei no meu relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles, e escrevi uma pergunta que não…
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A mesma sala, dois relatórios
Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe. Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia. Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração. Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença. No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar…
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Quem é nós
Reli o projeto do meu último estágio e reparei numa coisa que eu não tinha visto. Ele começa em primeira pessoa do singular. Pretendo desenvolver. Pretendo trabalhar. Realizarei oficinas. E no meio do quarto parágrafo, sem aviso, vira plural. Planejamos promover. Acreditamos que o teatro possui o poder. Esperamos contribuir. Nos permite unir a prática teatral com a educação, alinhando nossa vocação artística com a responsabilidade social. Não havia equipe. Não havia coautor. Era um estagiário sozinho, escrevendo um projeto sobre oficinas que ele daria sozinho. Quem é nós? Ninguém. É o plural dos documentos, e ele aparece exatamente onde o texto começa a afirmar coisas grandes. Repare na distribuição.…
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Em parceria com uma instituição religiosa
No projeto do meu último estágio de licenciatura, escrevi que pretendia trabalhar em parceria com uma instituição religiosa que promove atividades educativas extracurriculares para crianças em vulnerabilidade social. Instituição religiosa. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos. Conheço aquele lugar por dentro, sei o nome das crianças, sei quem levou cada uma delas e sei quais famílias não têm o que a gente supõe que toda família tem. E escrevi “em parceria com uma instituição religiosa”, como quem descreve um parceiro externo cujo nome ainda está sendo negociado. Não foi disfarce. Foi obediência ao formulário. Projeto de estágio pede campo, e campo, na gramática acadêmica, é um…
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Pesquisar onde se tem poder
No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental. É o lugar onde eu trabalho. E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição. Escrevi que entrevistaria estudantes. Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do…
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Orvalhos de conteúdo
Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma. Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes. Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada. O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas. Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados.…
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A defesa que entrega o jogo
Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…
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O livro que ficou na bibliografia
Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência. Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto. É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções. Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez. Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é. Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que…





























