Educação & Cuidado
A Lente Relacional. Orientação, acolhimento, aprendizado. Este é o pilar voltado para o outro. É a categoria da instrução, da empatia, da cura e da formação de indivíduos. Abarca seus papéis de: Professor, Pastor e Conselheiro. O que entra aqui: Práticas de ensino, metodologias de educação (como o homeschooling), reflexões sobre cuidado pastoral, textos sobre saúde emocional, mentoria de vida e artigos sobre o desenvolvimento humano.
-
E tenho uma novinha
Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol. Mas havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável, dedicou-se inteiramente à tarefa de me ensinar. Segurava firme o banco da bicicleta enquanto eu tentava me equilibrar. A areia, com sua maciez, transformava cada queda em algo mais parecido com uma brincadeira do que com um tombo. Caía sem medo, rindo das…
-
Vovozinha
Era uma manhã comum. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça e vi meu pai sair do quarto. Ele segurava os sapatos nas mãos, vestido de roupa social, mas desfeito. Sentou-se no sofá, ali na minha frente, e começou a…
-
Jesus Menino
Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender. A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome…
-
O único a aparecer
Em minha adolescência, um dos lugares que mais amava frequentar era o Vitória Futebol Clube, um espaço que se tornou uma extensão da minha casa. Foi lá que me conectei com a natação, uma prática que abracei por dois ou três anos, graças ao programa da Secretaria de Esportes da Prefeitura de Vitória. As pessoas me conheciam ali, e essa familiaridade me fazia sentir pertencente, mesmo quando o mundo adolescente parecia solitário. Além da natação, por um breve período, me aventurei na musculação, mas foi na piscina que vivi meus melhores momentos. Recordo-me de dias frios, quando a água parecia congelar a pele e a coragem era testada. Mesmo assim,…
-
Por terceiros
Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa: Daniel, Ana Paula, Aline e Keila. Keila era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial. Aline seguiu outro rumo, tornou-se empresária no ramo de supermercados e material de construção. A vida a levou a construir estruturas, enquanto a Keila passou a proteger as mesmas ruas onde um dia brincamos. Ana Paula se tornou médica. E Daniel, cujo caminho exato me escapa, foi o amigo que mais me acompanhou nas aventuras do cotidiano. Depois da infância, nossos laços se afrouxaram, as visitas cessaram, e cada um tomou seu rumo. Nunca mais tive contato direto,…
-
Ele cumpriu a promessa
As tardes na rua eram repletas de risadas, correria e improvisos. Em frente à nossa casa, um espaço entre a minha e a dos meus tios Zeco e Maria, montávamos nossa “arena”. Ali, travinhas improvisadas e uma turma que hoje em dia ficou guardada mais na memória afetiva do que nos nomes. Mas alguns não se apagam: Rafael, meu primo; Josué; Gessé; Whashiton; e Lila. Lila era um garoto branco, magro, que frequentemente jogava sem camisa. Era habilidoso, mas, por vezes, passava dos limites. Lila deu uma entrada dura no Rafael e começou a zombar dele. Rafael, retraído, parecia intimidado. Não suportei a visão do meu primo sendo alvo de…
-
O anel de plástico
As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus pais, mas suas histórias e seu jeito nos levavam a imaginar que ela era rica. Hoje, sei que isso era apenas fruto de…
-
Adolfina
Era 1999, e eu estava na turma da então 8ª série da EEPG Adolfina Zamprogno. Sentava na frente, ao lado da Simone, uma menina inteligente e de conversa agradável. Havia muitos colegas que marcaram minha vida: Márcio, que até certo ponto era meu “melhor amigo”, morava em Vila Garrido, numa casa à beira do morro, de onde se podia ver uma parte do bairro Pedra dos Búzios. Estive lá uma única vez. Havia também o Wilson, o Alexsandro Melo, o Wadvan, a Tasciana, o Paulo Rogério, o Renan, e outros nomes que o tempo levou. Alexsandro Melo era um menino que se destacava. Ele tocava pandeiro como ninguém, e sua…
-
Renato
Renato era o nome dele, meu colega de sala na primeira série do primeiro grau. Lembro-me de sua presença infantil, simples, tão parecida com a minha. A infância é um espaço de descobertas, mas também de ilusões, onde acreditamos que a vida é um fio inquebrável, imune às tragédias. Mas, em 1991, essa ilusão se desfez de forma abrupta e dolorosa. Foi em um dia qualquer, em casa, quando ouvi alguém falar, provavelmente minha mãe: “Renato morreu.” A frase, direta e sem alívio, me atingiu com um peso que eu, criança, não sabia carregar. Ele havia sido atropelado. Estava na rua principal do bairro Grande Vitória, pegando “ponga” na traseira…

























