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Aula 01: café
O cronograma tem cinquenta linhas. Da aula dois em diante, é o que se espera de um curso de teatro: possibilidades do corpo, danças populares, consciência corporal, linguagem postural, voz em harmonia com o movimento, improviso, roteiro, cenário, figurino, jogo de luz, quatro ensaios gerais e a apresentação. A primeira linha é outra coisa. Aula 01, 28 de junho de 2022: apresentação do projeto e coffee break especial com dinâmica de apresentação. A primeira aula é um café. Eu tinha acabado de passar meses observando aquela turma. Alunos de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, na Grande São Pedro, numa escola de tempo integral, dentro de…
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Ilhas afastadas
Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu. Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles. Escrevi no diário: eram ilhas afastadas. E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno. Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez. Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que…
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Descaracterizado
No primeiro dia em que acompanhei a turma em meu estágio supervisionado, o professor precisou se ausentar e uma professora de outra disciplina ficou com os alunos. A tarefa era copiar slides sobre grafismo. Ninguém copiou. Passaram a aula interagindo entre si. E eu anotei três frases no meu diário. Percebi que um aluno estava descaracterizado. Ele não estava de uniforme. Percebi que ninguém ligava para ele, e que ele fazia o que queria. Foi só isso. Escrevi as três frases e passei para o item seguinte. Levei quatro anos para reparar na palavra que eu havia usado. Descaracterizado é o termo administrativo. É assim que se diz, no vocabulário…
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Eram apenas palavras
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações nem ruídos, apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham em silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas nem placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e o…
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Fome de ser
Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…
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Cor, CEP e fé
Até 2008, o preconceito econômico e racial era, para mim, uma teoria distante. Uma realidade que girava o mundo e que ainda não havia esmagado os meus ombros. Eu caminhava amparado pela segurança da minha própria identidade, alheio à sensação asfixiante de ser rotulado por características que me são tão naturais quanto respirar. Ao ingressar em uma instituição de ensino, descobri da pior forma que a discriminação não habita apenas as calçadas. Ela prolifera, com requintes de sutileza, exatamente naqueles espaços que deveriam servir como santuários do desenvolvimento humano. Foi dentro daquela redoma, onde eu ingenuamente esperava encontrar pluralismo, que a parede invisível do elitismo colidiu comigo. As marcas do…
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A primeira pessoa do plural
A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática. A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as…
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Madrugadas de 2006
Sempre fui habitado por um paradoxo: o anseio pendular entre a distinção e o pertencimento. Desejava ostentar uma singularidade que me destacasse, uma superioridade silenciosa que, em vez de afastar, atraísse os outros. Ao mesmo tempo, mendigava aceitação. Queria diluir-me no grupo, sentir-me parte da tribo, ser igual o suficiente para não sobrar. Esse cabo de guerra me consumia, até que o mundo virtual, com as suas telas protetoras, ofereceu-se como o laboratório perfeito para testar essas facetas. Foi no epicentro dessa busca que as madrugadas de 2006, iluminadas pelo brilho pálido do MSN e do Orkut, surgiram como refúgio. A amizade mediada por redes não era apenas uma fuga:…
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Atrofiando em bando
Deparei-me recentemente com um grupo online batizado de “Seleção Natural”. A ironia do título já gritava aos olhos, mas decidi transpor a porta e observar a dinâmica. Logo ficou claro o propósito do espaço: um tribunal digital onde insultos eram sistematicamente dirigidos aos diferentes, fossem eles rotulados como românticos, sentimentais ou qualquer outra tipologia que fugisse ao molde do grupo. Para todos os réus, a sentença era unânime: “Vaza, babaca.” O que constitui um babaca aos olhos dessa tribo? O termo ali servia para designar o sujeito que diverge da normalidade estipulada pela bolha, aquele que ousa não se adaptar ao padrão e, por isso, precisa ser rebaixado. Quanto mais…
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Você é importante
Eu tinha catorze anos quando alguém me entregou a chave: “Você é importante.” Três palavras banais em sua estrutura. Não foram meramente escutadas: arrombaram as portas da minha percepção e instalaram-se no centro do peito, pulsando com a urgência de uma vida que, de repente, descobre que tem o direito de existir. Foi como se a abóbada do mundo se rasgasse. Fui tomado por uma alegria assustadora e vital, que brotava de uma nascente quase secreta e rapidamente assumia a força de um rio. E percebi as lágrimas transbordando, uma torrente que não lavava apenas o rosto adolescente. Aprendi ali a recusar a sobrevivência morna, a tatear o milagre escondido…



























