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Sinusite
Escrito em 2012, sobre 1990 ou 1991. Eu devia ter cinco ou seis anos. A minha primeira epifania de autoconsciência materializou-se numa tarde de infância, enquanto eu brincava sobre o muro dos fundos de casa, no bairro Grande Vitória. Estava ali, agachado, imerso na simplicidade ingênua dos jogos solitários, quando um desconforto súbito tomou de assalto a minha fronte. Entre os olhos, uma dor pulsante começou a ditar o seu ritmo, uma pressão densa que o meu vocabulário de menino ainda não sabia nomear. Mais tarde, a medicina chamaria aquilo de sinusite. Naquele instante, a única certeza era a presença irrefutável do incômodo, despontando em exata sincronia com o fim…
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Massa e volume
A fé é uma força que nos arrebata e nos transcende. É a certeza que finca raízes no espírito, revelando-se muito mais do que uma crença passiva ou um otimismo cego: é um saber profundo, uma convicção que rasga o véu do visível. Ao refletir sobre a anatomia da fé, deparo-me com a sua natureza insubmissa, aquela que zomba da lógica e vai além da confiança ordinária. Essa fé tem a sua nascente em Cristo, que uniu em Si mesmo a natureza divina e a humana. É por meio dEle que recebemos uma convicção que não oscila ao sabor das circunstâncias ou do medo, e que é plantada na alma…
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Uma laranja para Marcela
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela época, significava submissão. Tudo o…
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Repita o que a mamãe disser
Era quase meia-noite. Saímos do culto e fomos direto para o hospital. Minha mãe e eu. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas já me acostumava a essa rotina que parecia maior do que eu. O hospital era um lugar frio, e o branco de suas paredes me dava medo. Caminhava nos braços de minha mãe, olhando ao redor para rostos cansados e olhares baixos, silêncios que ecoavam mais do que palavras. Não gostava daquele lugar onde todas as crianças pareciam doentes, onde eu era apenas mais uma entre tantas. Apesar de tudo, havia algo que tornava a ida ao hospital suportável: a volta. Ao voltarmos para casa,…
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Linha de anzol
O céu estava azul. Algumas nuvens espalhavam-se pelo horizonte. Meu pai trabalhava fora, enquanto minha mãe, em sua labuta doméstica incansável, parecia nunca parar. Ela acordava antes de todos e só encontrava repouso muito depois que meu pai. Suas mãos moldavam o dia, enquanto meu universo infantil se desenrolava no quintal de nossa casa. Era um quintal vasto, um território onde cada grão de areia parecia ter uma história. Minha brincadeira favorita era contá-los, sem pressa, sem compromisso. Nessa vastidão, encontrei um canto especial: um amontoado de cascalhos, pedaços de lajotas e rebocos que um dia sustentaram uma casa. Agora, aquelas ruínas do passado haviam se tornado chão. Em meio…
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E tenho uma novinha
Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol. Mas havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável, dedicou-se inteiramente à tarefa de me ensinar. Segurava firme o banco da bicicleta enquanto eu tentava me equilibrar. A areia, com sua maciez, transformava cada queda em algo mais parecido com uma brincadeira do que com um tombo. Caía sem medo, rindo das…
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Jesus Menino
Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender. A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome…
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A Espada
Nos fundos do quintal do meu tio Zeco, próximo ao muro baixo que dividia nossa casa da casa da dona Marta, havia uma área de serviço, um espaço que se tornava palco de nossas brincadeiras. Naquele dia, uma fogueira dominava o cenário. Não me lembro ao certo o porquê de a fogueira estar lá, mas sua presença logo se integrou às minhas brincadeiras com meu primo Rafael. Brincávamos de espadas. Minha espada era uma barra de ferro arredondada, brilhante, que eu imaginava ser tão poderosa quanto as das histórias que povoavam minha mente. Movido por um desejo de torná-la ainda mais imponente, decidi introduzi-la no fogo da fogueira. A barra…
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Dobrei os joelhos
Aquela energia brota do coração e percorre cada célula do corpo, da cabeça até a ponta dos pés. É um poder que nasce da rendição absoluta ao Criador. Esse poder se manifesta com intensidade quando, com a boca e a alma em uníssono, proclamamos: Glória, Glória, Glória a Deus! Foi assim que o senti, em 2002, na Assembleia de Deus no bairro Primeiro de Maio. O culto estava cheio, mas, ao mesmo tempo, parecia que eu estava sozinho na presença do Senhor. Diante do altar, dobrei os joelhos. Fechei os olhos, abri a boca e deixei a alma falar, sem me preocupar com quem estava ao lado. Não havia mais…
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A igreja viu
Eram dias de festa na Assembleia de Deus no Bairro Grande Vitória, Congregação do Ministério da Volta do Rabaioli. A igreja estava cheia, as pessoas transbordavam alegria, e os bancos estavam repletos de fiéis prontos para celebrar. Meus pais, como sempre, estavam presentes. Papai, discreto, escolhia um lugar próximo à porta. Eu, doente e impossibilitado de andar, estava no colo de minha mãe. Naquele tempo, minha realidade era marcada por limitações físicas causadas por uma meningite que tinha me atingido severamente. Minhas pernas não firmavam, e a dor na coluna era constante. A cabeça de criança não compreendia a gravidade da situação. Para mim, a vida de internações, hospitais e…


























