Artes & Narrativas

A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.

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    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

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    Cada degrau é um ano

    Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…

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    Ele foi legião

    Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…

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    Spagnal

    Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…

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    O padeiro demitido

    Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…

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    A pasta do meu pai

    Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…

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    Deuses efêmeros de bairro

    O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…

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    Missionário das minhas memórias

    Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer. E é no…

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    Coma induzido

    Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…

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    Aritmética impossível

    Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas conhecer é…