Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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O Beco de Barro e Pedra: A Travessia e o Batismo de Spagnal
No meu mundo, ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Parecia que eu acabara de cruzar um limiar invisível, inaugurando a força de um ciclo de possibilidades inéditas. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. Mas nós não apenas chegamos; nós avançamos para além da margem. Fomos tateando cada vez mais fundo,…
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A Cartografia do Pão: Fornos Anônimos e a Liturgia do Cotidiano
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos em frente às casas de Dona Rosa (em memória) e do Natalino, o Natal. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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O Aterro Existencial: A Pasta do Meu Pai e a Vocação Inevitável
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal; e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear, mas que já pulsava em minhas veias. A palavra executivo, não sei…
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O Altar Improvisado: Um Sábado de Junho e a Epifania do Frio
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos; era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
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A Anatomia da Caverna: O Pacto Quebrado e a Coragem do Subterrâneo
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematomas na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma em um eco sem fim. Rejeitar é um ato; ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, mas com abismos internos irreconciliáveis. O primeiro, aquele que rejeita, raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo, aquele que sofre a recusa, é reduzido a um objeto descartado; é lançado à deriva e exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra ou a misericórdia de…
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O Despertar do Verbo: Da Hibernação ao Resgate do “Ideias para a Vida”
Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam com o zelo de quem vê na escrita um ato vital, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação espiritual não silenciou…
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A Aritmética do Abismo: O “3 mais 9” e a Fraude da Identificação
A ilusão poética do “3 mais 9” é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou como definitivos. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo e corrida; entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate, vira apenas uma fotografia embaçada na galeria da memória. Gestos, olhares e silêncios selam, de uma vez por todas, a nossa incapacidade de reconstrução. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena: a entrada na sala, o olhar…
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A Arquitetura do Vácuo: O Despertar do Estrangeiro e a Fraude das Paredes
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações ou ruídos; apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham no absoluto silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas ou placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e…
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A Sombra dos Alicerces: O Botão Forçado e a Tempestade Prematura
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar, mas, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto sombrio e de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita inesperada se materializou. Uma figura da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O…
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A Liturgia do Ônibus Errado e O Altar de Campo Grande: Quando o Erro se Torna Itinerário Sagrado
Era um domingo de 2008, banhado pelo frescor de uma manhã que parecia comum. Embarquei no ônibus com a mente ocupada pela lição da Escola Bíblica Dominical que eu deveria lecionar às oito horas na Assembleia de Deus em Padre Gabriel. O sol despontava e o silêncio das ruas prometia uma jornada técnica e previsível. Contudo, a vida, em seus desvios proféticos, decidiu reescrever o meu mapa. Sem perceber, o itinerário me traiu. Ou melhor, me conduziu. Dei por mim em Campo Grande, desembarcando em uma praça entre templos e incertezas. A inquietação foi imediata, mas o trocador, com a economia de palavras típica de quem apenas cumpre o expediente,…



























