Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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O Departamento de Medição do Progresso
O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o progresso técnico reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…
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Economia dos meios
Entre os princípios técnicos do trabalho com bonecos, anotei este: Economia dos meios. A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações. E depois listei os outros: o foco, a indicação pelo olhar, a triangulação que busca o diálogo, a manutenção do nível do boneco em relação a um ponto fixo, e a respiração. Todos são formas de fazer menos. Um boneco que se mexe o tempo todo não está vivo. Está agitado, que é outra coisa. O que produz a ilusão de vida é o contrário: um gesto por vez, na hora certa, e depois a quietude. É a pausa que faz o público acreditar, porque é na…
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Ler é muito divertido
Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…
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Pertence a Tiago
Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…
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Nem toda brincadeira é jogo
Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…
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Cada degrau é um ano
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…
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A luta entre a voz e o corpo
Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…
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Ele foi legião
Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…
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Spagnal
Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…
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O padeiro demitido
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…



























