Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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A umidade da tinta
Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou. O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim. Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo…
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Na ausência de testemunhas
Eu dou a luz, pois sou a própria luz que ilumina o desconhecido, a faísca que ousa onde muitos se recolhem. Carrego em mim uma ciência que escapa aos dogmas, uma verdade que sobrevive para além da racionalidade engessada e das fórmulas que se pretendem inquestionáveis. Encarno o fenômeno inominado, o lampejo que habita a lacuna entre as palavras. Manifesto-me como o alívio silencioso para o espírito aprisionado, o amortecimento das dores invisíveis, o consolo que inunda os que habitam o cárcere do próprio ser. Enxergo através das frestas do possível. Dispenso a inutilidade que o mundo consome com tanta reverência. Rejeito a felicidade estagnada, restrita ao raso e ao…
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Presenças opacas
Há pessoas que, embora continuem respirando fisicamente ao nosso lado, já partiram. Transformam-se em ausências silenciosas, presenças opacas que ocupam a geografia do ambiente, mas desocuparam completamente o nosso afeto. São rostos em trânsito, vozes que soam como ecos anestesiados, sombras que um dia nos foram vitais e que agora vagam no cenário das nossas vidas como figurantes. Em contrapartida, existe o avesso absoluto: aqueles que, mesmo tendo cruzado a fronteira irreversível da partida, recusam-se a nos deixar. Continuam a habitar o nosso íntimo, cravados no peito como tatuagens invisíveis. Permanecem com uma força que ridiculariza a distância e a morte, mantendo-se inteiros em cada memória e em cada gesto.…
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Sem segunda via
Eu sou o contraste, a ruptura do silêncio, o eco que ressoa no vazio. O ego que desmorona e se reconstrói em fragmentos. Sou o pensamento ainda sem forma, uma energia que pulsa entre o tangível e o desconhecido. Tornei-me o farol neblinado: uma luz que se propõe a guiar, mas que recusa revelar plenamente o caminho, preferindo perder-se na névoa que oscila entre a claridade e o mistério. Carrego em mim o peso do que deveria ter sido. Sou um passado que teima em se projetar no futuro, o eco de um tempo esquecido que reverbera em cada decisão inacabada. Escondo-me como um tesouro soterrado entre as camadas de…
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Fantasmas vegetais
Te busco com a intensidade de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa, o teu rastro parece tangível. Na madrugada, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova. Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina a cavar cada vez mais fundo. O…
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O primeiro respiro
Eu sou aquele ar que silenciosamente se aloja em teus pulmões, o fôlego concedido como um presente invisível. Torno-me o teu primeiro respiro ao emergires à superfície, no instante em que a vida clama e te puxa de volta ao mundo. Sou o suspiro que traz alívio ao peito, a substância que, ao ser absorvida, funde-se à tua própria carne. Quando os teus lábios rompem a água em uma busca desesperada por oxigênio, sou eu quem preenche a tua vontade de viver. Ajo como aquele descanso sutil que passa despercebido na mecânica natural da tua respiração. Não precisas notar a minha presença para que eu continue ali, nutrindo a tua…
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A porta jamais se tranca
Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte. Por um instante, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa. Mas um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina. À medida que a ventania varria o cenário, a topografia emergia. Eu estava diante de um universo que parecia ser forjado no exato instante em que eu o contemplava. Fendas abissais e picos vertiginosos, rios que serpenteavam rumo…
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Desprovido de pontes
Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior. Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque,…
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O que a fala teme
O olhar alcança o longe e perscruta o horizonte. Nesse ato de observar há algo que ultrapassa o desejo de ver: é um convite a desbravar a essência. A vida, com os seus limites, muitas vezes parece espremida na frieza de uma tela, restrita a rotinas e ao território comprimido das horas úteis. Diante desse achatamento, cada caractere que nasce na folha em branco é uma ruptura. Escrever é um ato de suprema coragem que revela o que a fala teme e o que o coração insiste em trancar. Cada frase converte-se em uma janela, uma fenda para o mistério. Quando escrevo, o pensamento encontra asilo. Refugia-se na exatidão da…
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Madrugadas de 2006
Sempre fui habitado por um paradoxo: o anseio pendular entre a distinção e o pertencimento. Desejava ostentar uma singularidade que me destacasse, uma superioridade silenciosa que, em vez de afastar, atraísse os outros. Ao mesmo tempo, mendigava aceitação. Queria diluir-me no grupo, sentir-me parte da tribo, ser igual o suficiente para não sobrar. Esse cabo de guerra me consumia, até que o mundo virtual, com as suas telas protetoras, ofereceu-se como o laboratório perfeito para testar essas facetas. Foi no epicentro dessa busca que as madrugadas de 2006, iluminadas pelo brilho pálido do MSN e do Orkut, surgiram como refúgio. A amizade mediada por redes não era apenas uma fuga:…



























