Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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Contemplar e devorar
A maçã, ali pendurada entre a folhagem, parece guardar no núcleo o segredo da humanidade. Ela nunca foi apenas um fruto: é um artefato simbólico que carrega o peso dos mitos fundadores e a poesia silenciosa do cotidiano. A tez fresca, tingida de um vermelho denso que roça o púrpura e banhada pelo orvalho da manhã, sugere um convite a investigar o que pulsa além da casca. Há nesse fruto um frescor que evoca o princípio de todas as coisas. É como se o momento exato em que o primeiro raio de sol toca a pele da manhã fosse congelado em matéria. É o sabor inaugural, a promessa física de…
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Sinusite
Escrito em 2012, sobre 1990 ou 1991. Eu devia ter cinco ou seis anos. A minha primeira epifania de autoconsciência materializou-se numa tarde de infância, enquanto eu brincava sobre o muro dos fundos de casa, no bairro Grande Vitória. Estava ali, agachado, imerso na simplicidade ingênua dos jogos solitários, quando um desconforto súbito tomou de assalto a minha fronte. Entre os olhos, uma dor pulsante começou a ditar o seu ritmo, uma pressão densa que o meu vocabulário de menino ainda não sabia nomear. Mais tarde, a medicina chamaria aquilo de sinusite. Naquele instante, a única certeza era a presença irrefutável do incômodo, despontando em exata sincronia com o fim…
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Não desistas de mim
Ó Senhor, eis-me aqui: despojado de orgulho, com as ilusões rasgadas, em absoluta confissão. Os meus pecados são densos e incansáveis como as ondas que se chocam contra o abismo do mar. Sou, na minha essência, um pecador, e diante da Tua santidade reconheço a minha falência e a urgência desesperada por renovação. Na aurora da vida, o meu coração nutria o desejo puro de Te agradar. Carregava a certeza ingênua de que atravessaria os dias de forma irrepreensível, confiando que a minha própria força moral bastaria para sustentar o sagrado. O tempo, contudo, foi o mestre implacável que me revelou a fratura exposta da minha natureza. À semelhança de…
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O caminho que atravessa
Pode haver um impedimento no centro da sua jornada, um monólito silencioso e imóvel que surge sem aviso para interromper o fluxo do percurso. Drummond escreveu o poema mais conhecido da língua sobre uma pedra assim, e vale dizer o que ele faz com ela: nada. A pedra não é vencida, não é removida e não ensina. Ela fica, e o que resta é nunca esquecer que ela estava ali. Essa recusa é o próprio escândalo do poema. Diante da minha, escolho outra coisa. Se eu estagnar, ela permanecerá indiferente e inalterada. Se decidir encará-la como ferramenta de amadurecimento, o impedimento vira matéria-prima do caminho. O único modo legítimo de…
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O prisioneiro é o carcereiro
A existência exige, a cada batida de coração, a coragem de desbravar o incerto. Contudo, é frequente a nossa inclinação para o abrigo das sombras conhecidas, aquele espaço de dormência onde a falsa segurança rapidamente se transmuta em cárcere. Quando nos fechamos nesse panteão de hábitos, tornamo-nos nossos próprios carcereiros. Essa jaula do passado não é habitada apenas por lembranças. É o depósito onde medos, traumas e arrependimentos se amontoam, forjando barreiras que nos exilam do agora e do amanhã. E o peso dessas correntes é tal que a mera intenção não basta para rompê-las. Surge, então, a necessidade de um Libertador: uma força que venha de fora e alcance…
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Digitais
Olhei fundo em teus olhos, e a tua alma me convocava para o abrigo dos teus braços. Um dia vi o teu nome cravado nas constelações e compreendi que a tua morada sempre foi vasta demais para as limitações deste mundo. Então você partiu. Hoje o céu chora a tua ausência, e a chuva derrama-se como se tentasse redesenhar os teus traços em cada gota que toca o chão. Permito que a água me banhe, guardando no silêncio do peito as marcas afiadas da saudade, as digitais de amor que você deixou impressas na minha pele. Prosseguirei de pé, sem temor, até o instante em que o teu olhar se…
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Quinze de março de 2010
Em 15 de março de 2010, numa tarde que ainda carregava a luz demorada do verão, completei vinte e cinco anos. Estávamos em Cariacica, na casa que guardava a simplicidade e a beleza dos nossos melhores dias. Aos vinte e cinco, as responsabilidades começam a cobrar o seu preço, mas a ilusão de que temos todo o tempo do mundo ainda nos protege. Recebi na varanda de casa os meus amigos, a irmã Cleuci, o Gabriel, a comunidade de Nova Belém, além do meu pai e da minha mãe. Eu estava cercado por aquele tipo de pertencimento que a juventude toma como garantido e que a maturidade reconhece como…
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Eu sou o que não disse
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda…
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Lá fora, primavera
Quando o sol entra pela janela do meu quarto, um novo dia floresce em seus raios dourados, e sinto o coração despertar em sintonia com a vida que renasce. A alegria, leve e fresca, é como uma festa que dança no ar e enche meu jardim de promessas. Lá fora, é primavera; dentro de mim, um verão vibrante. Estou aquecido pelo amor, pleno de felicidade. Tudo resplandece em uma beleza intensa, como se visse o mundo pela primeira vez. A primavera vem, e com ela vejo apenas flores, apenas rosas em meu caminho. Sou amado, e essa certeza é o solo fértil da minha existência.
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Cercar-se de palhaços
Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.” Ele mesmo parecia ser uma dessas figuras que carregam alegria consigo. Como o palhaço daquele circo distante, tinha uma habilidade incomum de arrancar um riso genuíno até dos momentos mais sombrios. O sorriso é uma atitude perante a vida, uma virtude que revela…


























