Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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O chinelo contra o pneu
Era um dia de domingo, daqueles dias que pareciam maiores na infância, e minha avó Arlinda havia me levado à Igreja Católica no bairro Estrelinha. A igreja ficava no alto, quase ao final de uma rua calçada com bloquetes de concreto. Subindo o morro, ela surgia como um marco entre o céu e a terra, silenciosa e serena. Não sei o motivo de termos ido naquele dia. O que marcou a minha lembrança aconteceu durante a semana. Eu estava novamente na rua, com minha bicicleta Monark verde e preta, o prêmio mais valioso que havia recebido, uma conquista que me fazia sentir rico. A bicicleta brilhava sob o sol, e…
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O toca-discos
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. O som estava ligado, e na simplicidade daquele momento, eu estava aprendendo a cantar. Cantava porque cantar era natural, tão natural quanto brincar ou sonhar. A voz era o único veículo necessário para dar vida…
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Eu sou um executivo
Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos. Ali havia paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis importantes para a igreja. Por algum motivo, a pasta havia sido descartada, e agora estava em minhas mãos. Na companhia de alguns amigos, cujos rostos e nomes o tempo apagou, olhei para aquela pasta com um misto de curiosidade e fascínio. Segurei a pasta…
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A Espada
Nos fundos do quintal do meu tio Zeco, próximo ao muro baixo que dividia nossa casa da casa da dona Marta, havia uma área de serviço, um espaço que se tornava palco de nossas brincadeiras. Naquele dia, uma fogueira dominava o cenário. Não me lembro ao certo o porquê de a fogueira estar lá, mas sua presença logo se integrou às minhas brincadeiras com meu primo Rafael. Brincávamos de espadas. Minha espada era uma barra de ferro arredondada, brilhante, que eu imaginava ser tão poderosa quanto as das histórias que povoavam minha mente. Movido por um desejo de torná-la ainda mais imponente, decidi introduzi-la no fogo da fogueira. A barra…
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Dois palitos em cruz
No quintal de casa, no bairro Grande Vitória, o palco era simples. Bastava uma formiga morta e uma caixa de fósforo vazia. A formiga, encontrada já sem vida, tornou-se o centro de um ritual. Peguei a caixa de fósforo e a transformei em um pequeno caixão. Cuidadosamente, coloquei a formiga dentro, fechando a tampa com um senso inesperado de reverência. Em seguida, comecei a escavar a areia do quintal, criando um buraco que serviria de sepultura. Era pequeno, proporcional ao tamanho do ser que ali seria depositado. Com a caixa depositada no buraco, preenchi-o novamente com areia, formando um pequeno montículo. Para finalizar, peguei dois palitos de fósforo, que se…
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Onde ela está
Era 2005, uma segunda-feira. O relógio marcava por volta das 11h30 da manhã, e o pequeno quarto no Bairro Cariaciquense estava tomado por uma luz intensa. O sol parecia ter descido para dentro da janela. As venezianas quebradas e os vidros soltos na janela balançavam ao sabor do vento, enquanto eu observava o beco à frente. Conseguia ver alguém, ou ao menos achava que via. Quem era? Não sabia. A luz ajudava, mas também atrapalhava. Meus olhos corriam de um lado para o outro, exploravam cada canto. O céu parecia límpido, mas ao baixar o olhar, eu não via pessoas. Apenas morcegos. Eles voavam em uma confusão de asas, como…
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A Chuva
A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas foi engolido pelo vento que rugia ao meu redor. O tempo parecia roubar pedaços da alma. Os pulmões, agora assobiando como uma flauta desafinada, eram cúmplices desse momento. O vento rugia como um chamado. Ele não…
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Vinte dias
Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse caminho era o corredor que nos levava àquele terraço. Eu sempre levava meu violão Giannini série estudante, adquirido…
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Para Não Esquecer
Há histórias que se costuram com detalhes tão singelos quanto inesquecíveis: um teclado, uma avenida, uma porta que se abria para a ação, bancos de madeira simples, uma menina e sua irmã que amavam as canções da Cassiane. Entre tudo isso, havia o “Hino do Vitória”, que se tornava o centro das celebrações. Naquele cenário, havia também um diácono que tinha um jeito peculiar, quase como um padre, com uma serenidade que parecia marcar sua presença. Ele era uma dessas figuras que, mesmo sem grandes palavras, deixava uma impressão duradoura. E havia o presbítero Paulo, um homem cuja presença era um alicerce na obra de Deus, companheiro fiel de meu…

























