Filosofia & Teologia
A Lente Investigativa e Espiritual. Profundidade, sentido, rigor acadêmico. Aqui reside a sua busca pela verdade, pelo sentido e pelas bases do pensamento humano e divino. É o seu espaço de maior densidade teórica. Abarca seus papéis de: Filósofo, Teólogo e Pesquisador. O que entra aqui: Ensaios sobre epistemologia, análises éticas, estudos teológicos aprofundados, recortes da sua pesquisa acadêmica de doutorado e reflexões sobre a condição existencial humana.
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Duzentos anos depois, a mesma pergunta
Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…
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Depois do diagnóstico
A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída. O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira. Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto. Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele. Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando…
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A razão instrumental no púlpito
Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…
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O gamão
Escrevi que Hume tem uma moral provisória. Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro. E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso. O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve? Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente. É…
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O hábito
Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça. Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima. A resposta óbvia é que a experiência ensinou. E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma. Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela…
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Todos disseram a mesma coisa
Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez. No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico. No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico. No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente. Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si. E a mesma frase no…
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Nem tese nem antítese
Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese. Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive. Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso. Continuo achando isso verdadeiro. Só que a tríade não é de Hegel. Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por…
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Não por falta de entendimento
Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. E acrescenta uma cláusula que muda tudo. Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia. Não é burrice. É medo. Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento. Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada. Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata…
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O que a síntese não conta
Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970. Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes. Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado. O que aconteceu foi o seguinte. Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.…
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Deslumbramento
Aristóteles diz, na Metafísica, que os homens começaram a filosofar por espanto. Primeiro diante das dificuldades imediatas, depois avançando pouco a pouco para questões maiores. Espanto é o ponto de partida do conhecer. Não a necessidade, não a utilidade, não o método: o assombro diante de uma coisa que a pessoa não entende. E ele acrescenta uma observação que quase ninguém cita: o conhecimento dissolve o espanto de propósito. Dá o exemplo da diagonal do quadrado, que não pode ser medida pela mesma unidade do lado. No começo, isso é espantoso. Depois que se conhece a demonstração, espantoso seria o contrário. Ou seja: para Aristóteles, o espanto é o combustível…



























