Filosofia & Teologia
A Lente Investigativa e Espiritual. Profundidade, sentido, rigor acadêmico. Aqui reside a sua busca pela verdade, pelo sentido e pelas bases do pensamento humano e divino. É o seu espaço de maior densidade teórica. Abarca seus papéis de: Filósofo, Teólogo e Pesquisador. O que entra aqui: Ensaios sobre epistemologia, análises éticas, estudos teológicos aprofundados, recortes da sua pesquisa acadêmica de doutorado e reflexões sobre a condição existencial humana.
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Por que ninguém lavou as mãos
Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…
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Construção não quer dizer invenção
Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…
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Um pastor que tem consciência por mim
Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…
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Um diálogo sem diálogo
Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala. O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso. Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham. É por essa cena que o livro é lembrado. E eu…
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O bloco
Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes. Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses: Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls. Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro. E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento. Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são…
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Um pastor lendo Nietzsche
Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…
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A defesa que entrega o jogo
Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…
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A gramática e o poeta
Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos. A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático. E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza. Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma. Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma…
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O diagnóstico de 2001
Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…
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A cura pela fala
Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto: Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos. E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale. Parei nessa frase por um tempo. Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam. Eu não falo. Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante…





























