Filosofia & Teologia
A Lente Investigativa e Espiritual. Profundidade, sentido, rigor acadêmico. Aqui reside a sua busca pela verdade, pelo sentido e pelas bases do pensamento humano e divino. É o seu espaço de maior densidade teórica. Abarca seus papéis de: Filósofo, Teólogo e Pesquisador. O que entra aqui: Ensaios sobre epistemologia, análises éticas, estudos teológicos aprofundados, recortes da sua pesquisa acadêmica de doutorado e reflexões sobre a condição existencial humana.
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Prometem chuva, entregam seca
A Carta de Judas cabe em vinte e cinco versículos e gira em torno de um único verbo: guardar. Os destinatários são chamados, santificados em Deus Pai e conservados por Jesus Cristo. Os anjos que caíram são precisamente os que não guardaram o seu principado. Os leitores são exortados a conservar-se no amor de Deus. E o fecho declara que Ele é poderoso para guardá-los de tropeços. Somos guardados, alguns falharam em guardar, devemos nos guardar, e no fim é Ele quem guarda. O autor se apresenta como servo de Jesus Cristo. Sendo irmão de sangue de Jesus, poderia reivindicar essa proximidade como título de prestígio, e escolhe a humildade…
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A primeira pessoa do plural
A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática. A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as…
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A casa varrida
As Escrituras denunciam práticas de adivinhação e consulta aos mortos, e o livro de Isaías é explícito quanto a isso (8:19; 19:3). Vale uma precisão de vocabulário: a expressão traduzida como “espíritos familiares” verte o hebraico ‘ôb, que designa o espírito consultado por médiuns, e não espírito de família. O português sugere uma parentela que o original não afirma. Ainda assim, permanece a questão pastoral que a Igreja enfrenta há séculos: por que certas famílias repetem, geração após geração, os mesmos padrões de ruína? Há repetição observável no próprio texto bíblico. Abraão apresenta a esposa como irmã para se proteger, e Isaque faz exatamente o mesmo, no mesmo tipo de…
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O útero do silêncio
A articulação da voz é um rito, uma arte capaz de costurar abismos. Cada sílaba que soltamos no ar funciona como extensão física de quem somos, uma radiografia do que carregamos no peito. Quando verbalizamos um pensamento, damos contorno àquilo que até então era apenas um fantasma na mente. O verbo é, na raiz, um gesto de gênese: a capacidade de moldar o invisível e erguer realidades que jamais existiriam sem o sopro da nossa voz. Contudo, romper o silêncio cobra um preço. É uma responsabilidade que exige compreender a balística de cada som que emitimos, porque o impacto não reside apenas no conteúdo, mas na forma. As nossas sentenças…
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A assimetria humana
Um afeto desenhado na sua totalidade, pleno, exposto ao mundo na sua força mais crua e, ao mesmo tempo, na sua maior vulnerabilidade. Um sentimento transbordante, regado por uma paixão que aparenta ignorar a finitude. Mas seria essa completude sustentável? O perigo de atingir o ápice é a vertigem do vazio que se abre logo em seguida. A inquietude espreita, e o vício pela perfeição transforma-se em um labirinto onde o sentimento, pesado de tão completo, paralisa-se. Torna-se uma estátua de mármore: fria, irretocável e mortalmente inflexível diante do tempo. Há um terror subjacente nessa utopia romântica que não admite falhas e que exige um estado de êxtase permanente. A…
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Uma vírgula de Deus
Planejo. Estudo. Grito. Vou. Cada ação é um passo calculado, um avanço cego em direção ao que eu imagino ser a linha de chegada. Mas não alcanço o porto que desejo. O meu olhar perde-se na neblina entre os sonhos concretos e as miragens. Cada movimento que executo é um eco da minha ambição, uma busca que pulsa nas veias e insiste em dissolver-se ao menor toque. Sonho. Olho. Fito. Avanço. Em cada nova tentativa acende-se uma faísca de esperança, uma explosão breve de fé na quebra do impossível. Mas a realidade impõe-se como um muro de concreto. Não realizo. Persisto. Insisto. Não desisto. Lanço-me com fervor ao campo dos…
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Rascunhos de nós mesmos
Desbravar a existência é um ofício reservado aos corajosos, àqueles que se dispõem a tatear as margens do desconhecido com o peito desarmado. Viver não pode ser reduzido a um reflexo mecânico de passos automáticos e agendas cumpridas. É uma travessia irretornável. E, no meio dessa travessia, esbarramos naquilo que somos, ou naquilo que nos convencemos ser. Fugimos da realidade construindo um exílio autoimposto, uma fuga anestésica que nos treina para ter pavor da verdade. Nós a procuramos, sim, mas trememos diante do que ela pode desenterrar. Caminhando como rascunhos de nós mesmos, carregamos a dúvida em estado latente: o que, afinal, estamos sendo? Será que esse eu que apresentamos…
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Fechar as portas de fora
O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro. A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio. Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão,…
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Estou vivendo um inferno
Já tentou dimensionar o céu? É um exercício que esmaga qualquer vocabulário. Como poderia o olho humano, viciado na cronologia e na dúvida, vislumbrar uma beleza que não cabe na nossa geometria? O céu não é um latifúndio de nuvens nem um auditório grandioso: é o estado em que a presença de Deus reina sem a interferência das sombras. É a dimensão onde o amor deixa de ser apenas um sentimento e se torna a própria matéria-prima da realidade. Em contrapartida, é curioso, e até trágico, ouvir alguém esbravejar diante de uma crise: “estou vivendo um inferno”. Como se a perdição pudesse ser reduzida a um contratempo. O inferno verdadeiro…
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Sem marcha nupcial
É trágico observar como a simplicidade orgânica das Escrituras é frequentemente esmagada pelo fardo das tradições humanas. Há aqui uma questão que ecoa através dos milênios: o casamento, sob o olhar de Deus, jamais dependeu de cerimônias pomposas nem de protocolos religiosos. Ele é, na sua essência, um pacto entre duas almas, uma aliança que o Criador sempre tratou na esfera do íntimo. Historicamente, o matrimônio não surge na Bíblia como sacramento litúrgico gerido por sacerdotes. No relato de Isaque e Rebeca, em Gênesis 24, há negociação familiar, há presentes, há o consentimento de Labão e Betuel, e ao fim Isaque a acolhe na tenda e ela se torna sua…



























