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A Engrenagem Invisível

A chuva batia na janela com uma cadência que, de certa forma, imitava o tique-taque de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a rua lá embaixo: o fluxo contínuo de carros, os semáforos alternando suas cores com precisão milimétrica, os guarda-chuvas que se abriam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre tão viciada na concretude do mundo, logo sussurrou a palavra óbvia: máquinas.

É muito fácil olhar para o nosso tempo e culpar o aço, o silício e os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é aquele objeto frio que repousa sobre a mesa ou a estrutura maciça que cospe fumaça no horizonte. O erro – um erro antigo, que já limitava a visão de intelectuais do passado – é confundir a ponta do iceberg com o oceano inteiro.

A máquina é apenas a face visível de um monstro muito mais vasto, silencioso e assustador. A verdadeira força que governa a rua lá embaixo não é o motor a combustão; é a técnica.

Você é uma engrenagem

Pensei no homem que vi mais cedo no café. Ele não estava apenas operando uma máquina de expresso. Os movimentos de suas mãos, a forma como calculava o tempo da extração, o sorriso ensaiado que oferecia a cada cliente no exato momento da entrega do copo. Havia ali um método absoluto. A técnica havia se infiltrado na carne. Ela dita como trabalhamos, como administramos o tempo, como educamos e, o que é mais trágico, como nos relacionamos.

Nenhum fato social, humano ou espiritual conseguiu escapar intacto. A angústia moderna não nasce do fato de estarmos cercados por aparelhos, mas da constatação silenciosa de que nós mesmos fomos transformados em processos que precisam ser otimizados. Reduzimos a filosofia a manuais de autoajuda eficientes; transformamos a educação em métricas de desempenho; planilhamos nossos afetos.

A técnica certamente começou com a máquina. Foi a alavanca, a polia, a engrenagem de bronze que nos ensinou o fascínio pelo controle. Mas ela não precisou de muito tempo para se desprender de suas origens mecânicas. Ela percebeu que o material mais maleável, complexo e fascinante para se moldar não era o ferro.

Éramos nós.

A rua lá embaixo continuava seu balé roteirizado. Voltei os olhos para dentro, para o silêncio da sala, perguntando-me, com um aperto súbito no peito, que parte dos meus próprios sonhos, dos meus próprios contos e da minha própria essência ainda não havia sido padronizada pela ilusão da eficiência.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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