A Escada Escura: O Porão da Memória e os Trilhos do Destino
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me subitamente no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho.
Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite uma leve claridade é a própria escada, exercendo uma gravidade íntima que me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa desesperada de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui.
Lá embaixo, no exato ponto onde o “eu” foge de mim e a luz tenta fazer as pazes com a escuridão, nasce uma fonte. É um manancial de lágrimas que brota das raízes de uma árvore invisível, plantada no porão escuro dessa casa interna. Absorvo o sol improvável que perfura a laje, uma luz que se solidifica em sentimento e puxa o meu coração como se fosse uma corda esticada. Uma mão invisível aperta o meu peito e engendra em mim a renúncia definitiva: a aceitação dolorosa de que jamais serei aquele que a minha imaginação outrora desenhou.
A mente tenta laçar essa memória antiga, esse ideal alojado no fundo das artérias. Desço os degraus em busca do sentimento que me abandonou, ou que deixei escorregar pelos dedos. Desço à procura da alma que até tentou me encontrar, mas que, no momento do abraço físico, dissolveu-se no ar; no choque das forças, os meus braços encontraram apenas o meu próprio corpo vazio, se é que a minha alma ainda sabe o caminho de volta.
Continuo a descida sem a trilha sonora das despedidas, com a cabeça tomada pelas batidas de uma canção cuja letra ainda não aprendi a decifrar. E é lá, nas profundezas do porão, que o escuro cede espaço a uma imagem nítida: procuro a primeira biblioteca que vi na vida, atrás da porta de vidro, na casa do meu tio, em Paul. Aquela casa imponente que se recusa a abandonar a memória, onde meu tio ainda era jovem e o futuro de todos nós parecia um roteiro perfeitamente impresso, mas que nunca chegou a ser filmado.
Nós redigimos a vida com a arrogância da tinta e acreditamos cegamente na infalibilidade do nosso próprio roteiro. Mas a existência possui as suas próprias leis. Ela é um trem correndo em trilhos invisíveis, com um enredo autônomo que, sem qualquer aviso prévio, descarrila, nos desloca e nos arranca violentamente da cabine de comando da nossa própria caminhada.
Passamos boa parte da vida escrevendo “roteiros” detalhados de onde queremos chegar, mas a realidade tem a mania incontrolável de mudar os trilhos e nos levar para paisagens que nunca imaginamos. Nem sempre o destino final é ruim, mas a quebra de expectativa sempre dói. Quando você olha para trás e vê o “roteiro” que imaginou na juventude, qual foi o momento em que a sua vida mais “descarrilou” em direção a algo completamente diferente? A caixa de comentários é o nosso espaço de reflexão.


