A Escada Interior: Memória, Perda e o Descompasso do Destino
Eu ouço um barulho que vem lá do fundo do coração.
Quando fecho os olhos, apareço em uma escada. Lá em cima.
Minha visão é de cima para baixo, e é para lá que olho.
Vejo uma escada preta, com piso preto, corrimão preto; uma casa sem muita iluminação. O que se ilumina é apenas essa escada, que me convida a descer. De olhos fechados, a visão se abre, e eu desço: cada degrau é um ano, um ano de solidão, um ano de caminhada, um ano tentando capturar quem sou no que um dia fui.
Ali, onde o eu foge de mim, onde a luz tenta fazer amizade com a escuridão, nasce uma fonte — a fonte de lágrimas que brota lá de dentro da árvore escondida no porão dessa casa. Absorvo o sol que penetra a laje, que se solidifica em sentimento e puxa, como corda, o meu coração. A mão, que tem poder de apertá-lo, engendra em mim a renúncia de ser, um dia, quem eu já fui no pensamento.
O pensamento tenta capturar esse pensamento antigo, escondido, alojado lá dentro do coração. Eu desço as escadas em busca do sentimento que um dia me deixou, ou que um dia eu perdi. Eu desço as escadas em busca da alma que me encontrou, mas que, na tentativa de abraçar o físico, não estava lá; meus braços, no choque das forças, encontraram apenas a si mesmos, se é que ela ainda pode se encontrar.
Desço sem a música da despedida, com a cabeça tomada pelas batidas de uma canção que ainda não sei decifrar. Lá no interior, procuro a primeira biblioteca que vi depois da porta de vidro, na casa do meu tio, em Paul; naquela casa bonita que não sai da memória, onde meu tio era jovem e o futuro parecia já escrito, e não foi.
Escrevemos a vida e acreditamos no nosso próprio roteiro. Mas a vida tem seus trilhos, seu próprio enredo, que descarrilha, nos desloca e nos arranca do comando da nossa própria caminhada.


