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A Caverna da Rejeição e o Veneno dos Homens
A rejeição é uma ferida que não sangra. É uma pedra invisível lançada contra o peito, mas que reverbera na alma como um eco sem fim. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo. Dois gestos, duas dores, duas margens do mesmo abismo.O primeiro, aquele que rejeita, talvez nem saiba o peso que deposita no outro.O segundo, aquele que é rejeitado, sente-se como algo descartado, lançado à deriva, deixado à margem, exilado sem sentença, sem palavra, sem rosto. O sentimento de rejeição não nasce no vazio: ele floresce precisamente onde havia a intenção de permanecer, de fazer parte, de entrelaçar passos na mesma estrada. Só se sente rejeitado aquele…
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Vivificância: O Ser do Não Ser e a Presença do Vazio
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata; paradoxalmente precisos em sua imprecisão, como um lastro pesado que se expande e toma volume, desfocando limites e identidades. Um sentimento que insiste em não ser rotulado, embora exista concretamente em sua própria abstração. Refiro-me ao “vazio”, não aquele “nada” simples e inexistente, mas a algo maior, mais profundo e inevitavelmente presente. O vazio não pode ser definido simplesmente como ausência, pois ele é. Ele possui forma na ausência de forma, é o ser do não ser, uma presença que persiste justamente em sua negação. É nesse paradoxo que ele ganha potência e vida própria, fazendo-se notar ao resistir…
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A Supremacia do Um: A Matemática Filosófica da Vida
Há na aritmética dos valores humanos uma equação que desafia os números e transborda a lógica habitual. Um único ser, preenchido por virtudes profundas, supera multidões desprovidas de significado. Este “um”, portador de algo essencial e vibrante, torna-se a resposta à monotonia das quantidades vazias. O que é um senão a síntese da totalidade quando habitado pela potência de um ideal? O que é o mundo senão o reflexo de um espírito que se recusa a ceder ao desencanto? Um com esperança é maior que três desesperançados, pois a esperança é o sopro vital que move a existência em direção ao inominável. Três que desistiram nada mais fazem que sedimentar…
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O Renascimento das Palavras: Um Blog que Respira Após o Silêncio
Por entre as camadas silenciosas de um tempo que passou, carrego a memória de uma voz sufocada. Foi sob o peso de circunstâncias externas que me paralisaram que minha liberdade de escrever encontrou sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas ventos contrários, soprando incertezas e receios que se infiltraram no cotidiano, minando a convicção de que minhas palavras tinham lugar no mundo. Pouco a pouco, a chama que sustentava minhas ideias começou a vacilar, apagando-se sob o sopro frio do desânimo. Foi assim que abandonei o meu Ideias para a Vida, um espaço que fora, até então, um refúgio, um campo onde pensamentos brotavam livres, cultivados com o zelo…
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O Amor Perdido na Linha do Tempo
A ilusão poética do 3 mais 9 é a esperança de quem acredita poder refazer movimentos que, no tempo, já se tornaram definitivos. Mas o tempo não retrocede.Ele desliza sobre trilhos invisíveis, em velocidade constante, sem freios, sem paradas, sem possibilidade de reembarcar na estação que ficou para trás. Tudo acontece em movimento.Entradas e saídas se dão em plena corrida. E quando algo é perdido, não há recuo possível, apenas a memória permanece, como uma fotografia embaçada. Assim, alguns gestos, palavras e olhares selam nossa impossibilidade de reconstrução.O pedido feito.A aceitação silenciosa.A entrada na sala, o olhar cruzado à direita — onde, sentada, estava ela: a promessa de algo transcendente.…
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O Quarto que Me Leva
O Quarto que Me Leva Entro em um quarto cercado de livros. Lá, mais à frente, repousa uma cadeira com rodinhas — outrora pertencente a um escritório comercial, hoje memória enferrujada. Seus braços denunciam o tempo com ferrugem, e o encosto rasgado revela o que não mais sustenta. Diante dela, duas telas: um monitor de 24 polegadas e uma televisão de 32. Acima, dois olhos eletrônicos — webcams de olhos azuis e vermelhos — que me encaram com a vigilância muda da modernidade. As paredes não são apenas paredes — são bibliotecas. À frente, ao fundo, à direita, à esquerda: livros empilhados como muralhas de pensamento. Acima, instrumentos em seus…
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A Travessia da Caverna
Havia um homem.Não era diferente dos outros, senão pela marca invisível que carregava no peito: uma ferida sem nome, sem sangue, sem cura aparente. Um dia, ao se estender para tocar a mão de outro, esta lhe foi recusada.Não houve palavras, não houve explicações, apenas o frio súbito do não acolhimento, o eco de portas que se fecham sem ranger. Foi então que, sem perceber, ele encontrou a entrada da caverna.Não havia mapa, nem trilha, nem placa avisando: “Aqui habita o rejeitado”.Havia apenas um portal aberto diante de seus olhos, e uma dor tão funda que não encontrou coragem para dizer não. Ele entrou. Dentro da caverna, o tempo perdeu…
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Entre o Aqui e o Lá
Eu estou aqui e estou lá, habitando simultaneamente o presente e o além, como um fluxo contínuo que navega entre o agora e o eterno. Sou um movimento de lá para cá, uma passagem constante entre o que foi e o que está por vir, ancorado no momento, mas impulsionado por algo mais vasto. Carrego em mim a dança entre esses espaços, onde cada passo revela um pouco mais do que sou e do que estou me tornando. Nesse caminho, anulo o peso da hostilidade, dissolvendo as barreiras que tentam me prender ao desassossego, à resistência. Escolho repousar em minha própria voz, uma voz que é ao mesmo tempo um…
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A Altivez que o Cerceamento Não Alcança
Há uma violência que não se manifesta em golpes, mas na insinuação constante, na presença sufocante de quem se esforça para se sobrepor. Um ser fisicamente mais largo, hierarquicamente mais alto, que, por meio de sua cor, seus olhos, e o espaço comprado ao custo de sacrifícios alheios, faz questão de esmagar simbolicamente aquele que considera uma ameaça. Não é apenas o corpo que impõe sua sombra, mas a intenção que carrega — o ódio por aquilo que não pode controlar, por aquilo que resiste a se curvar. Ser negro, ser homem, ser evangélico: não são meras características; tornam-se, aos olhos do opressor, motivos para o cerceamento, para a limitação,…
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A Sabedoria do Provisório
Ser escolhido como o provisório pode parecer, à primeira vista, uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade, uma espera amarga até que o definitivo ocupe seu lugar. Contudo, essa visão superficial ignora a profundidade do gesto envolvido. Há uma sabedoria oculta em aceitar o papel provisório, em reconhecer o chamado que ele implica. Pois, por trás da aparente transitoriedade, há uma escolha — e escolhas nunca são neutras. Ser o provisório, quando compreendido em sua essência, é revelar uma força que o definitivo raramente possui. O provisório não é apenas a ausência de algo melhor; é a presença de uma coragem que se recusa a recuar diante da…




















