Espiritualidade e Reflexão

Porta de saída, porta de encontro: o pastor e a minha adolescência de fé

Quando nos mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, eu estava no início da adolescência. Comecei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Primeiro de Maio (PIBPM). Depois da primeira visita, continuei indo: às vezes na Escola Bíblica Dominical, outras nos cultos de meio de semana e nos domingos. Quase parecia já um membro. Aos poucos, porém, fui deixando de ir.

Tínhamos uma vizinha chamada Eni, casada com o Seu Francisco, a quem chamávamos, com carinho, de Titico. Ambos já idosos à época, por volta dos sessenta e poucos. Eni era uma senhora bonita, de pele clara, cabelos grisalhos, mais para o branco do que para o preto, e um ciúme manso do marido. Crente, era membra da Segunda Igreja Batista de Vila Batista (SIBVB) curiosamente situada em Pedra dos Búzios, apesar do nome. Ela raramente frequentava: aparecia, de vez em quando, nos cultos dominicais da manhã, sobretudo nos dias de Ceia. Com o passar do tempo, essa frequência foi rareando. Depois que deixei a PIBPM, passei a acompanhar a igreja de Eni.

Lembro da primeira vez que fui: um domingo à noite. Cheguei e procurei lugar à frente; acabei no meio, nem à frente, nem atrás. Pelo meu tamanho e idade, a igreja me parecia grande. Havia um piano encostado à parede, calado, coberto por um pano fino; o pó, sob a luz amarelada, brilhava como um silêncio depositado sobre as teclas. A congregação era majoritariamente idosa. Um homem de cabelos grisalhos, de olhos fechados, orava com os lábios a se moverem baixinho, quase um sussurro. Eu sentia certa aridez no ar e, ainda assim, a fé começava a emergir em mim. O culto era simples; o pastor, simples. Não havia “cessão de oportunidades”, como na Assembleia de Deus. Não havia grupo de louvor. A palavra, embora mais elaborada do que eu costumava ouvir na Assembleia, permanecia simples. O que me marcou, sobretudo, foi o gesto ao final: o pastor desceu do púlpito, foi para a porta e cumprimentou cada pessoa que saía. “Paz, meu jovem”, disse, segurando minhas mãos um segundo a mais do que o costume. Até hoje acho isso belíssimo, um costume que diz muito sobre o pastoreio.

Segui frequentando e comecei a ir à Escola Bíblica. Na classe de adolescentes, a professora era a esposa do pastor: fervorosa, mas rasa em algumas afirmações. Quando soube que eu vinha da Assembleia de Deus, passou a criticar abertamente, durante as aulas, tanto a Assembleia quanto a Maranata. Certa vez, no meio de uma explicação sobre “ordem no culto”, ela disse, olhando a turma com seriedade: “Sabe aquelas manifestações? São do demônio.” Referia-se às manifestações do Espírito Santo. Fiquei perplexo. Minha mente ainda estava em construção, e aquela sentença descia como pedra. Discordávamos e doía. Ainda assim, reconheci que a fidelidade dela tinha raízes honestas, fincadas no que entendia por santidade e prudência. Mas as críticas aos dons espirituais tornaram-se uma constante. Por mais que eu gostasse da igreja, do pastor e, em parte, de sua esposa, percebi que ali eu não me sentiria bem. Fui desanimando. Reduzi a participação nos cultos, mas, enquanto meus pais não se tornaram membros de outra igreja, continuei indo à SIBVB.

O pastor era batista, conservador, recém-ordenado, primeiro pastorado. Foi ali que descobri algo novo para mim: o pastor batista recebia salário, casa pastoral, carro, telefone e outras provisões. Lembro que se comentava que o salário era bom. Na tradição assembleiana em que cresci, o ministério era vocação e, via de regra, o sustento vinha do trabalho secular. Naquele ambiente, fui assimilando coisas de que eu nem tinha noção e percebendo diferenças e semelhanças entre a Igreja Batista e a Assembleia de Deus.

Talvez eu tenha alcançado o fim de duas tradições conservadoras evangélicas tal como as conheci: uma Assembleia de Deus que hoje é rara de se ver e uma Batista aos moldes que encontrei na SIBVB. Entre aridez e afeto, disciplina e costume, fui entendendo que a fé, às vezes, fala alto no que fica calado. Aprendi, à minha maneira, que Deus também se revela nos detalhes: no silêncio de um piano coberto, no aperto de mão à porta, na palavra simples que insiste em permanecer. E você, que detalhe pequeno, um gesto, um silêncio, moldou a sua fé?

Tiago Vieira é evangelista na Assembleia de Deus – Missão Apostólica e coordenador da CAE no Ifes. Atua em Educação, Filosofia, Teatro, Gestão Pública e Teologia, com enfoque em fenomenologia, hermenêutica e gestão por processos (RACI).

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