Relacionamentos e Consciência

Crônica de uma queda sem reset

Quando temos restrição de algo, a tendência é colocarmos foco no que não temos e não conseguirmos vislumbrar, ou dar importância, ao que já se tem. É notório: a ênfase no que falta transpassa o estado de pertencimento, e busca-se a quem não se pertence. Nesse estágio, surgem oportunidades pequenas, se comparadas ao que eu almejava alcançar.

Na linguagem popular, usa-se a metáfora da escada: “Você não alcançou o topo, mas é de degrau em degrau que se chega ao objetivo.” Diante dessa metáfora, parecia que aquela pequena oportunidade fosse apenas uma fase para chegar a um patamar mais alto, algo passageiro. Encarei como um estepe; mas o que, na mente, era para ser provisório, tornou-se definitivo. Não pela força do querer, mas por não conseguir controlar a situação; eu pensava estar no controle, mas a situação é que me controlava.

Um ser externo a mim percebeu isso. Na verdade, dois seres de vozes femininas. A primeira disse, com ironia amarga: “Quem tem duas cabeças sempre pensa com a menor.” A segunda cravou uma espada com lucidez: “O degrau te escolheu, e você nem sabe por quê.” Na metáfora do orelhão, quando a ficha caiu, percebi que eu caí: caí numa cilada. Não era um degrau; era uma armadilha. Caí do degrau.

O esforço contínuo e progressivo foi água abaixo quando pisei em falso numa circunstância da vida que eu queria fazer provisória, mas que, sem avisar, decretou-se definitiva. A avenida se transformou em beco; as possibilidades, em perdas; o vislumbre, em choro e lamento.

Quando caí, decepcionei a mim mesmo. Foi um sentimento de nadar, nadar, nadar e morrer na praia. Não era um jogo de videogame em que se pode resetar. Uma terceira voz feminina se levantou, grave, e disse: “Não era; mas agora será. Você vai ter uma pequena tribulação com ela.”

O santo objetivo, lá em cima, me aguardava. Depois que caí, para minha humilhação, o santo objetivo do fim da escada resolveu descer e bateu à minha porta. Quem atendeu foi o degrau que me fizera cair. O degrau se alegrou: foi um prazer vingativo atender ao objetivo que desceu. O objetivo, supondo ser o definitivo, como eu supus, naquele momento, abaixou os olhos, baixou a cabeça, deu meia-volta, entrou no veículo que o trouxera para baixo e subiu.

Meu coração dilacerou. Senti o peso da perda: perdi o controle, perdi a escada, perdi o caminho, perdi o sentido e perdi a esperança. Além de perder, percebi que não havia como reconstruir. Eu me perdi. O objetivo tentou me recuperar, mas eu já estava estragado.

Lamentei. Perdi a voz. Um nó se estabeleceu: uma pressão no peito que não se aquietava. Como válvula de escape, restaram os olhos, que permitiam chorar. Eu chorei: chorei sozinho, chorei acompanhado e, de novo, sozinho; chorei com outra mulher ao telefone. Em meu quarto, soluçando, eu sabia que decepcionara alguém que confiara em mim, alguém que tinha a esperança certa de que eu passaria de fase num jogo praticamente ganho. Mas, de modo intenso e cruel, fiquei cego: tomei o degrau por humildade e chamei o topo de ilusão e de interesses escusos sem ver que o interesse escuso estava no degrau.

Uma voz bradou, levando o nome da mãe do degrau. O brado foi de alerta, mas tardio, quase empatado com a queda. O degrau buscou o nome de sua mãe numa amiga e se escondeu lá no fundo. O prêmio sofreu. Chorou. Eu fiz um prêmio sofrer e chorar. A tentativa mental de estabelecer um conserto não passou de uma gambiarra. Assim, por ilusões óticas, sofri e fiz sofrer; enganei e fui enganado. Dilacerei corações e o meu foi dilacerado.

No silêncio que restou, recolhi a ficha do chão: ela não caiu para me dar crédito, mas para revelar a máquina. Ergo os olhos e vejo, de novo, a escada inteira. Não há reset, mas há degraus que eu escolho e, desta vez, não me deixo escolher por eles.

Tiago Vieira é evangelista na Assembleia de Deus – Missão Apostólica e coordenador da CAE no Ifes. Atua em Educação, Filosofia, Teatro, Gestão Pública e Teologia, com enfoque em fenomenologia, hermenêutica e gestão por processos (RACI).

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