Relacionamentos e Consciência

Último Dia em Primeiro de Maio

Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então.

A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de opção. Eu, adolescente, dava aula a adolescentes. Por lealdade e pudor, redobrei o cuidado com as meninas da minha idade, distância respeitosa. Entre as que iam à Escola Dominical, lembro de Paulinha, Werica e Aliadine; sempre as respeitei. Havia ainda outros, o irmão de Werica, depois o Tiago. Foi um tempo bom. Paulinha, porém, era a menos aplicada; sua desatenção me deixava tenso, e eu insistia em incentivar o engajamento espiritual.

Um domingo, todos faltaram, menos ela. Foi sua melhor aula. Depois, permaneceu, ajudando-me num projeto. Ali intuí mudança, mas não disse nada. O semblante, antes rígido, amansou; torna-se mais tranquila e participativa. Então chegou a partida: fomos para a Congregação de Jardim de Alá, e ela ficou em Primeiro de Maio.

A imagem que guardo: Paulinha à porta fechada da igreja, os pais a seu lado. Eu, no carro branco com meus pais, partindo, não voltaríamos. Ela acena: um adeus. Eu respondo: outro. A despedida se sela. O carro arrasta-se, papai ainda conversa com o pai dela; com a marcha lenta, as lágrimas dela também chegam lentas. O motor esquenta; os olhos, rubros. Quando o carro enfim acelera, ela chora. E eu, do lado de dentro, descubro que ela gostava de mim. Não havia celular; perdemos o contato. Naquele último dia, confirmei o que anos suspeitei. Assim se fechou um ciclo da minha vida.

Tiago Vieira é evangelista na Assembleia de Deus – Missão Apostólica e coordenador da CAE no Ifes. Atua em Educação, Filosofia, Teatro, Gestão Pública e Teologia, com enfoque em fenomenologia, hermenêutica e gestão por processos (RACI).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você não pode copiar conteúdo desta página