A Batalha Diária, a Trindade e a Autoridade de João: Uma Análise de Primeiro João 1
Uma leitura de 1 João 1
Resumo e marcadores-chave
- Lutas pessoais e foco: As dores e distrações do cotidiano (inclusive uma enxaqueca por falta de café…) não devem nos afastar do propósito maior: aprofundar na Palavra.
- Trindade imanente e econômica: Distinguir entre a Trindade em si mesma (Deus em sua vida eterna) e a Trindade atuando na história (Deus que vem ao encontro do ser humano para salvá-lo).
- Sentido teológico de “economia”: Muito além de dinheiro e administração humana, trata-se da “oikonomia” divina: o modo como Deus dispensa, administra e realiza a salvação na história.
- Autoridade apostólica de João: Ele fala como quem viu, contemplou e tocou o Verbo da Vida, condensando divindade e humanidade de Cristo em um único versículo (1 Jo 1.1).
- Retorno às fontes: Urgência de fugir tanto do liberalismo (onde tudo se torna permitido) quanto da ortodoxia morta/legalista (lei pela lei, sem sentido) e voltar ao “porquê” bíblico das coisas.
- Encarnação e mistério trinitário: Contemplar, ainda que de forma analógica e simbólica, como a vida trinitária se nos oferece na história por meio da Encarnação e da economia da salvação.
Amados, como mencionei no início da nossa aula, a jornada nem sempre é suave. Às vezes, as lutas são extremamente simples e, ao mesmo tempo, profundamente reais: uma enxaqueca tão forte que beira a náusea – e que, confesso, desconfio ter sido consequência da falta de café (vício assumido…). Entre a dor de cabeça e as demandas práticas do dia (como ligar para a Faculdade Unida, em Bento Ferreira, em meio a outras tarefas burocráticas), permanece uma convocação interior: não abandonar a Palavra.
Para mim, jejum é sacrifício. E estudar, de certo modo, também o é. Aprofundar na Escritura exige renúncia: renúncia de comodismos, de distrações, de preguiça intelectual. Se queremos crescer em Cristo, haverá sempre um “preço” em termos de tempo, foco e disposição.
O ponto de partida da nossa reflexão é um axioma: a diferença entre a Trindade Imanente e a Trindade Econômica.
- Trindade Imanente: é Deus em Si mesmo, na eternidade, na plenitude da sua própria vida divina, sem qualquer necessidade de criar o mundo ou o ser humano. É o mistério trinitário antes de toda história, o “princípio sem princípio”.
- Trindade Econômica: é Deus que irrompe na história, que entra no tempo, que age para salvar. É a Trindade que se deixa conhecer no envio do Filho e na missão do Espírito Santo, no meio da nossa concretude, da nossa carne, do nosso sofrimento.
Se Deus não precisava criar o homem, então a Trindade imanente não “depende” da criação para ser o que é. Quando falamos da Trindade econômica, falamos de Deus que, livremente, decide agir na história, entrar no nosso tempo, assumir a nossa carne para nos resgatar. Por isso, o objetivo central dessa economia é a salvação.
Para nós, a palavra “economia” costuma remeter a dinheiro, orçamento, política. Mas, no vocabulário teológico, é preciso alargar o horizonte: trata-se da oikonomia de Deus, isto é, do modo como Ele administra, distribui e conduz o plano de salvação na história. A economia divina não é um orçamento, é um itinerário de graça.
Reconheço: termos como imanente, econômico, transcendente não são fáceis. E é saudável admitir essa dificuldade. O estranho seria achar tudo isso trivial. A boa notícia é que a dificuldade pode ser vencida com esforço reiterado: assistir às aulas duas ou três vezes, reler anotações, voltar ao texto bíblico, dialogar com os grandes autores da tradição.
Não se trata apenas de aprender palavras novas, muitas delas vindas do latim ou do grego, mas de elevar o nível da nossa vida interior. Estudar bem é também questão de qualidade de vida: ajuda-nos a discernir o que vale a pena ouvir, ler e seguir.
Pense em Santo Agostinho: um homem de vida profundamente desordenada, que, depois de décadas de busca e da intercessão perseverante de sua mãe, Mônica, foi alcançado pela graça e tornou-se um gigante do pensamento cristão. Ou em Martyn Lloyd-Jones, que confrontaria sem medo grande parte do “evangelho” superficial que se ouve hoje, chamando-nos de volta à profundidade doutrinária e à seriedade da pregação.
Daí a necessidade de um Retorno às Fontes (ressourcement):
- fugir do liberalismo teológico, onde tudo se torna permitido, a ponto de quase nada ser mais confessado com firmeza;
- e fugir também da ortodoxia morta/legalismo, onde a regra é defendida por si mesma, sem que se compreenda o seu sentido, sem que o coração seja alcançado.
Não basta pegar um versículo isolado para defender uma causa pessoal. O texto só encontra seu verdadeiro sentido no contexto da Bíblia toda. E, para isso, é preciso conhecer não apenas o texto, mas também a vida e a seriedade de quem o interpreta – por exemplo, o trabalho consistente de Hernandes Dias Lopes em seus comentários expositivos, que procuram manter fidelidade ao texto e aplicação pastoral.
Dentro desse movimento, fazemos uma pausa momentânea na Cristologia para mergulhar em 1 João, a fim de trabalhar a base psicológica e espiritual da fé: conhecer a Deus, conhecer a nós mesmos à luz de Deus e discernir os espíritos em um tempo de confusão.
Em 1 João 1.1, o apóstolo entra na carta com uma autoridade que não é abstrata nem meramente intelectual; é a autoridade de quem experimentou:
“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos,
o que contemplamos, e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida.”
Aqui, em um único versículo, João condensa a dupla dimensão de Cristo:
“O que era desde o princípio” – fala da sua divindade, da sua preexistência eterna, da sua imanência em Deus, o Verbo que estava com Deus e era Deus (Jo 1.1).
“O que vimos… contemplamos… e as nossas mãos tocaram” – fala da sua humanidade real, concreta, da sua presença histórica, da sua inserção na economia da salvação. O Verbo eterno, “que está no seio do Pai” (Jo 1.18), torna-se agora o Verbo da Vida que pode ser visto, ouvido e tocado.
O testemunho de João é, portanto, existencial. Ele não fala como um teórico distante, mas como alguém que caminhou com Jesus, que reclinou a cabeça sobre o peito do Mestre, que O viu ressurreto, que O adorou como Senhor e Deus.
Como a ovelha conhece a voz do seu pastor (Jo 10.4, 27), o primeiro sinal de quem diz conhecer a Deus é justamente a capacidade de discernir a voz de Jesus. Em meio a tantas vozes religiosas, espirituais e ideológicas, o discípulo é chamado a conhecer, ver, ouvir, contemplar e adorar a Cristo.
Em linguagem simbólica, podemos dizer que a Encarnação nos abre uma fresta para contemplar a intimidade trinitária se derramando na história: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, desde sempre em comunhão perfeita, “convergem” na economia da salvação, manifestando-se de modo particular em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Não se trata de três “almas” no sentido filosófico estrito, mas de três Pessoas divinas que, na unidade de um só Deus, se dão a conhecer de forma histórica e salvífica no corpo de Cristo e na ação do Espírito.
A vida se manifestou (1 Jo 1.2). E essa manifestação é luz: recorda-nos a cena da Transfiguração (Mt 17.1–3), em que o rosto de Cristo resplandece como o sol. Aquele que João tocou na carne é o mesmo que irrompe em glória.
Por fim, volto ao nosso chamado prático: organizar a vida de estudo. Isso inclui fazer a lista dos livros lidos, registrar o que se está aprendendo, criar um ritmo de leitura que não seja esmagado pelo improviso do dia. Não deixe o estudo para depois.
Seguiremos aprofundando a base teológica e espiritual em 1 João, passo a passo, na certeza de que o Deus que age na história continua agindo também no pequeno campo de batalha do nosso cotidiano.
Referências bíblicas citadas ou sugeridas
- 1 João 1.1–2 – Testemunho apostólico sobre o Verbo da Vida.
- João 1.1, 1.14, 1.18 – O Verbo eterno, sua encarnação e sua relação com o Pai.
- João 10.4, 27 – A ovelha que reconhece a voz do Pastor.
- Mateus 17.1–3 – A Transfiguração de Jesus.
Sugestões de leitura teológica (para quem desejar aprofundar)
- AGOSTINHO, Santo. Confissões. Diversas edições em português.
- RAHNER, Karl. A Trindade. São Paulo: Paulus.
- LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte (e outros sermões expositivos).
- LOPES, Hernandes Dias. 1, 2 e 3 João (série de comentários expositivos).


