Relacionamentos e Consciência
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A infância dos “eus possíveis”
Ele não falava de sonhos de travesseiro, mas dos que exigem vigília: desejos que esticam o corpo para além do presente. Entre seis e nove anos, viu-se muitas coisas: executivo (o primeiro clarão), pastor com dons, bombeiro, do Exército, da Marinha, da Aeronáutica; administrador, político, secretário; médico, enfermeiro; professor, psicólogo, advogado, juiz; cantor, músico de banda; gari; estrangeiro na Europa; jogador de futebol, nadador; escritor, pregador itinerante; ator, filósofo, educador. Tantas vidas passaram por dentro e ele não foi todas. Aos quarenta, a sensação de que a vida correu sem pouso. Diz ter perdido vinte anos. Feridas de infância. Desde 2008, ápice e queda, vitórias sem celebração, opressões, traços de…
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Crônica de uma queda sem reset
Quando temos restrição de algo, a tendência é colocarmos foco no que não temos e não conseguirmos vislumbrar, ou dar importância, ao que já se tem. É notório: a ênfase no que falta transpassa o estado de pertencimento, e busca-se a quem não se pertence. Nesse estágio, surgem oportunidades pequenas, se comparadas ao que eu almejava alcançar. Na linguagem popular, usa-se a metáfora da escada: “Você não alcançou o topo, mas é de degrau em degrau que se chega ao objetivo.” Diante dessa metáfora, parecia que aquela pequena oportunidade fosse apenas uma fase para chegar a um patamar mais alto, algo passageiro. Encarei como um estepe; mas o que, na…
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O Desmantelamento do Eu
A paixão é uma alquimia rara, um instante em que duas realidades se encontram e, ao invés de permanecerem apenas paralelas, se fundem. Não é um simples entrelaçar de vidas, mas uma fusão completa, onde cada ser se dissolve e recria para dar origem a algo novo — a terceira pessoa do plural. Surge, então, um “nós” que antes não existia, um espaço comum que é, ao mesmo tempo, um encontro e um renascimento. Quando a paixão surge, ela traz em si a mágica de unir o que, até então, era distinto, uma entrega onde os limites se desfazem e as individualidades se mesclam num sentimento que transcende a razão.…
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Aliança e Compromisso: A Jornada do Casamento como Caminho de Crescimento e Fidelidade
O casamento é como uma empresa onde organização, estrutura e comprometimento formam os alicerces que mantêm seu funcionamento. A harmonia entre os parceiros não é meramente desejo, mas uma ética sagrada, um pacto mútuo. Cada um, ao comprometer-se com o outro, torna-se guardião das promessas trocadas, e ao quebrar qualquer dessas regras, põe em risco a estabilidade e a própria sobrevivência da união. Há áreas fundamentais que sustentam esse pacto — sexo, finanças, papéis sociais, laços familiares e criação de filhos —, e nelas moram as maiores crises, mas também as maiores possibilidades de crescimento. Em cada desafio, temos a chance de amadurecer o relacionamento, renová-lo em novas bases e…
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Amor e Consciência: Uma Jornada para Além do Ego e da Superficialidade
No labirinto das relações, muitas mulheres se encontram presas em ciclos de dor, sofrimento e desilusão. Esse padrão, repetido ao longo do tempo, revela uma verdade que é, ao mesmo tempo, desconcertante e libertadora: a raiz do sofrimento amoroso está, muitas vezes, na falta de consciência dos homens com os quais nos relacionamos. Mas há uma saída, um caminho que leva a um tipo de relacionamento profundo, verdadeiro e pleno – algo que só pode ser encontrado ao lado de um homem com um nível de consciência elevado. 1. A Superficialidade do Ego Masculino Para entender por que os relacionamentos geram tantas feridas, é preciso distinguir o tipo de masculinidade…
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Verdade e Escolha: A Arte de Reconhecer o Amor Verdadeiro em Um Mundo de Aparências
Amar e ser amada. Quantas vezes, neste desejo, nos perdemos em promessas vazias e em afeições que mais nos afastam da essência do que nos conduzem a ela. Neste mundo onde o brilho superficial seduz mais do que a profundidade, o amor verdadeiro parece se esconder, e acabamos, tantas vezes, nas teias do ego. O que define este tipo de relação que nos tira tanto e nos dá tão pouco? Qual é a verdadeira origem do sofrimento no amor, especialmente para as mulheres que se entregam com o coração aberto, apenas para descobrir que suas esperanças foram alimentadas por uma miragem? O que nos magoa é a desconexão do outro…
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Último Dia em Primeiro de Maio
Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então. A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de…


