Mensagens e Inspirações

Eu Buscava

Eu busco.
E quando criança, já buscava.

Sentado no quintal da minha casa, no bairro Grande Vitória, com o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, transformando o presente de meu bisavô, um terreno outrora manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro se tornou quintal, e o quintal, o meu mundo.

Ali eu brincava. E ali mesmo eu buscava.

Buscava algo que não sabia nomear, mas que já me habitava. A palavra executivo, não sei de onde veio, mas sei que estava em mim. Não era comum ouvi-la. Falo dos anos de 1991, talvez 1992. Mas ela saiu da minha boca como quem afirma uma identidade.

Naquele quintal de chão improvisado, eu me via com a pasta de meu pai. Uma pasta executiva. Ele a levava à igreja com seus documentos, sua Bíblia e a Harpa Cristã, o hinário das Assembleias de Deus. Eu via aquela pasta e, com a minha mente de menino, reproduzia os gestos de um futuro que ainda não havia acontecido, mas que já pulsava dentro de mim.

Me imaginava de terno.

Não era brincadeira: era uma anunciação.
Não era um brinquedo: era um símbolo.
Ali, no quintal, nascido de um mangue, a infância vestia-se de destino.
E a busca que começou em mim,
ainda continua.

A palavra saiu de minha boca,
mas o sentido não.

Ela me escapou como uma semente lançada ao vento,
não sabia o que era, mas sabia que era minha.
Ficou ressoando entre a areia do quintal e o silêncio do coração,
como uma promessa que nunca se cumpria de todo,
mas também nunca se perdia.

Hoje, quase quarenta anos depois,
ainda estou aqui.
Buscando.

Ainda não sei exatamente o que quero ser quando crescer,
talvez porque crescer, para mim, não seja chegar,
mas continuar escutando aquela voz que me habita desde menino.

Aquela voz que falava de uma pasta,
de um terno,
de um gesto firme,
mas que na verdade me chamava para algo muito mais profundo:
um lugar onde alma e sentido se encontrassem.

Talvez eu nunca me torne o que pensei.
Talvez o que eu sou esteja além de qualquer nome,
além de qualquer profissão,
além até da palavra “executivo”.

Talvez o que eu buscava não fosse um cargo,
mas um sentido.
E talvez ainda esteja buscando não o que vou ser,
mas quem, de fato, já sou,
quando me permito lembrar.

Tiago Vieira é evangelista na Assembleia de Deus – Missão Apostólica e coordenador da CAE no Ifes. Atua em Educação, Filosofia, Teatro, Gestão Pública e Teologia, com enfoque em fenomenologia, hermenêutica e gestão por processos (RACI).

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