Mensagens e Inspirações

O Preço de Ser Visto

A sensação era como a de conquistar o mundo com os próprios olhos, um olhar de esperança, quase uma súplica silenciosa, ao repousar sobre aquela camisa branca de algodão egípcio, pendurada como um estandarte. “É ela”, pensei, “é ela que vai me ajudar a conquistar ela”. Não era apenas uma peça de roupa: era um talismã, uma armadura, uma promessa vestível de que eu também podia ser alguém.

O preço? Maior que o salário. Maior que a razão. Uma transação absurda entre desejo e ilusão.

O relógio suíço — vindo dos Estados Unidos como se cruzasse oceanos para marcar uma nova era — parou na alfândega. Ficou retido, como se até o tempo me dissesse: “não és digno de mim”. Quando finalmente chegou, custou mais que três meses da minha liberdade. E o que ele me deu em troca? Apenas um peso no pulso e uma vergonha nos olhos.

Naquele tempo, o sonho ainda vinha protagonizado como uma loteria. E foi assim, em uma tarde qualquer de 2006, num laboratório de informática vazio depois da aula, que abri as portas do mundo pela internet, tentando ser visto — tentando ser aceito. Vasculhava lojas virtuais como quem busca sentido, como quem cavuca o chão atrás de um mapa perdido. Queria encontrar a camisa estilosa que alguém disse que eu não tinha.

A anterior, uma camisa social azul, feita de tecido plástico que arranhava o corpo, foi motivo de escárnio. Disseram: “isso não é estilo”. Eu não sabia o que era estilo, mas aprendi cedo que ele não estava em mim. Eu não queria parecer, eu queria apenas pertencer. Mas me ensinaram que antes de pertencer era preciso negar a si mesmo.

E ali, naquela busca, começou o exílio.

Um fracasso não percebido, uma vergonha imposta como sentença. Um modo de vida rejeitado por aqueles que não suportavam a minha autenticidade. Fui me desfazendo, pouco a pouco, tentando me refazer por pedaços emprestados dos outros. A vida, em sua fluidez traiçoeira, traçou meu caminho como um imã que atraiu lobos famintos e parasitas cruéis.

O relógio não me trouxe status. Apenas atraso.
O cabelo que cortaram me roubou a autoridade.
E, sem perceber, fui me despindo de mim.

Ouvindo demais os outros, fiquei nu de mim. E quando já não era mais eu, quando restava só o boneco moldado pelo desejo alheio, eles sorriram, viraram as costas e foram embora. Sem culpa, sem adeus.
Paguei caro.
Paguei o relógio.
Paguei a alfândega.
Paguei o luxo desnecessário da camisa que me afastou dela.
Paguei pela Urban Store que me entregou um “Porkelvis” e me roubou o norte, desviando meus passos da trilha onde minha alma queria pisar.

Meu destino era o sul, mas fui girando em círculos até parar no mesmo lugar — como quem corre para escapar de si e acaba tropeçando no próprio corpo.

A dor de não ter dado certo me atravessou.
Doeu ouvir quem não merecia minha escuta.
Caí em um buraco — não fundo, mas disfarçado — um buraco com espumas e espinhos invisíveis.
A corda apertou meu pescoço por dentro, silenciosa.
E o desespero da solidão me iludiu com promessas de abandono eterno.

Em meio às desilusões, a pior traição: aquela de quem me prometeu o amor da santa mulher que, supostamente, traria liberdade para que eu pudesse anunciar o Amor pelas estradas da vida.
Me roubaram a promessa e me deixaram com o eco.

A música desapareceu do som das teclas que nunca mais ouvi.
E os talheres, no restaurante onde um dia comemos juntos, tilintaram ao lado do lobo sagaz que devorava, com prazer, a comida que paguei com 20 anos de sacrifício.
A promessa de um lado da mesa.
A trapaça do outro.

O jarro caiu, a água escorreu pelo chão. Não deu tempo de enxugar. A vergonha molhou tudo.
Assumi a culpa.
Assumi a dor.
Assumi a realidade.

Dentro do carro, no banco de trás, gritei. A vergonha me escutou e se fez presença.
A amizade evaporou.
A realidade pesou — amarga, densa, inegável.

Fui deixado por quem eu implorava por perto.
Contaminado pelo banal, pelo raso, pela mediocridade sem sentido.
Fui expulso do paraíso — não por desobediência, mas por desejar demais a aceitação dos outros.

E hoje, ao olhar para trás, percebo que o estilo nunca esteve na camisa, nem no relógio, nem na internet.
Ele estava em mim.
Na dor que resiste.
Na memória que sangra.
Na alma que, mesmo despida, ainda carrega dignidade.

Talvez não tenha conquistado o mundo.
Mas fui inteiro no fracasso.
E isso, agora eu sei, é mais digno do que ter sido metade no sucesso.

Tiago Vieira é evangelista na Assembleia de Deus – Missão Apostólica e coordenador da CAE no Ifes. Atua em Educação, Filosofia, Teatro, Gestão Pública e Teologia, com enfoque em fenomenologia, hermenêutica e gestão por processos (RACI).

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