Rascunhos de nós mesmos
Desbravar a existência é um ofício reservado aos corajosos, àqueles que se dispõem a tatear as margens do desconhecido com o peito desarmado. Viver não pode ser reduzido a um reflexo mecânico de passos automáticos e agendas cumpridas. É uma travessia irretornável.
E, no meio dessa travessia, esbarramos naquilo que somos, ou naquilo que nos convencemos ser. Fugimos da realidade construindo um exílio autoimposto, uma fuga anestésica que nos treina para ter pavor da verdade. Nós a procuramos, sim, mas trememos diante do que ela pode desenterrar. Caminhando como rascunhos de nós mesmos, carregamos a dúvida em estado latente: o que, afinal, estamos sendo? Será que esse eu que apresentamos ao mundo é uma arquitetura de papel, uma invenção frágil que desmorona ao menor toque do real?
A realidade tornou-se uma tela que borramos com cores ilusórias, um véu onde as nossas fantasias ganham contornos quase críveis. Temos uma necessidade de maquiar o mundo com pinceladas de delírio, e a nossa própria histeria segue camuflada sob o rótulo da autenticidade. Preferimos assim, sem fazer perguntas, como se a agitação do movimento fosse sinônimo de propósito. Somos viciados na efemeridade e na vaidade de nos sentirmos úteis enquanto nos esgotamos em tarefas vazias.
Despidos das máscaras, revelamo-nos como fragmentos desconexos: pontes que não ligam margens, cascas vazias, rascunhos sem destino. Despertamos afetos passageiros, erguemos sonhos de areia e colecionamos escolhas imaturas.
Ao final, a travessia nos encurrala para o encontro inadiável. Podemos fugir de muitas pessoas, de incontáveis cenários e das nossas próprias responsabilidades, mas não há rota de fuga que nos salve do espelho.


