A estética do assombro
Em Mateus 18, diante da pergunta sobre quem seria o maior no reino dos céus, Jesus coloca uma criança no meio dos discípulos e diz que é preciso tornar-se como ela. O sentido primeiro é humildade: o menino é pequeno, dependente, não tem posição a defender.
Mas há uma segunda coisa naquela criança, e é dela que quero falar.
A infância carrega uma capacidade ilesa de assombro. É a virtude de não domesticar o olhar, de enxergar em cada instante uma fenda para a descoberta. Ser como uma criança é declarar guerra à banalidade e recusar a cegueira diante do comum.
O relato de um colega sobre uma viagem de ônibus ilustra essa fratura entre as idades. Ao seu lado, uma criança transformava o trajeto em um evento épico. Diante de uma árvore comum, o grito era de alegria contagiante: “Olha lá, mamãe!” Ao cruzar um estacionamento, a exclamação era de maravilhamento. E quando a ponte finalmente revelou a vastidão do oceano, a criança ergueu os braços e decretou um sonoro “Viva!”. Naquele instante, o mundo deixou de ser cenário opaco e virou uma explosão sucessiva de novidades.
Com o passar dos anos, o verniz da maturidade nos convence a abandonar a imaginação em nome de um realismo pragmático e cinzento. As responsabilidades nos tornam excessivamente sérios, e o mistério da existência é engolido pela rotina. A epifania infantil nasce de um fator inegociável: para a criança, o contato com o exterior é sempre inaugural. A alegria brota porque tudo é inédito.
E se adotássemos a postura de encarar cada instante como se fosse a primeira vez? Mais ainda: se olhássemos para as coisas, para o rosto de quem amamos, para o vento, para o pão sobre a mesa, com a reverência de quem sabe que aquela também pode ser a última vez?
Ser como uma criança é abraçar o instante com a alma desarmada.


