Eleições da CADEESO 2026: Entre o Discurso de União e a Realidade da Concentração
A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que precisam de ser partilhadas com honestidade. O peso de um nome é, sem dúvida, importante, mas é fundamental ter um plano de gestão e publicizá-lo com propostas reais que de facto sejam implementadas.
A referida chapa levanta frequentemente a bandeira da “união”. Contudo, ao examinarmos a sua estrutura, notamos uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local (AD Aribiri) a ocupar cargos nevrálgicos e estratégicos: a Secretaria e a Tesouraria. Na prática, são ministros que já estão subordinados ao presidente na esfera da igreja local. Como garantir a isenção e a pluralidade de ideias quando as chaves da administração e das finanças estão centralizadas num único ministério? Cria-se, assim, a perigosa narrativa de uma gestão “Aribiri-cêntrica”, correndo-se o risco de transformar a convenção numa extensão da igreja local.
Outro ponto alarmante é a restrição da diretoria à Grande Vitória. A CADEESO é, na sua essência, uma convenção estadual. Onde estão os representantes do Norte, do Noroeste, do Sul e da Região Serrana? O interior não pode, de forma alguma, ficar de fora da gestão. Hoje, com a facilidade das reuniões online e das ferramentas digitais, a distância geográfica deixou de ser justificação para a exclusão. O interior não serve apenas para depositar votos nas urnas; tem de ter voz ativa e assento na mesa de decisões.
Sente-se também uma imensa falta de propostas que contemplem os convencionais que não são pastores presidentes. Os pastores auxiliares e evangelistas, que carregam o trabalho de base, não podem ser esquecidos. Somado a isto, cresce entre diversos ministros a perceção de uma instrumentalização da CADEESO para finalidades políticas. Passa-se a imagem de que se dá primazia a questões e alianças externas, de viés político, em detrimento da própria instituição, da sua vocação espiritual e dos seus interesses eclesiásticos imediatos.
Faltam projetos vitais, como um plano de crescimento uniforme em que os grandes e estruturados ministérios fortaleçam, de forma prática e estrutural, as pequenas igrejas. Urge uma reforma no modo de levantamento de fundos da convenção, aliada à criação de um verdadeiro Portal da Transparência, onde sejam lançadas todas as resoluções da mesa e movimentações financeiras para escrutínio de todos. E não podemos, jamais, silenciar sobre a necessidade de garantias claras de amparo aos nossos pastores jubilados e às viúvas.
Essa carência de concretude na base ficou ainda mais evidente com a proposta de Gestão e Administração (2026-2030) divulgada de forma estruturada, nesta última semana antes das eleições. Ao lermos os 15 pontos apresentados, encontramos pautas como “elevar o perfil da CADEESO no cenário nacional”, “administração transparente”, “atualização do Estatuto” e o planejamento para a “implantação do Centro de Convenções no Vale Encantado”. Embora sejam projetos institucionais válidos, soam como um plano genérico focado na cúpula. Prometer transparência não é o mesmo que detalhar como ela será feita; prever integração em grandes eventos nacionais (como EBO e CAPED) não resolve a dor diária da igreja pequena.
Diante disso, levanto um questionamento central e urgente: a CADEESO é uma convenção de “pastores presidentes” somente ou de “pastores e evangelistas”? É importante frisar que a esmagadora maioria dos convencionais não são presidentes de campo. A nossa convenção é formada, na sua grande massa, por pastores auxiliares e evangelistas. Contudo, ao lançar metas na reta final voltadas quase exclusivamente para a vitrine externa e para o topo da hierarquia administrativa, fica claro que o ministro auxiliar, aquele que sustenta o trabalho, continua a não se ver contemplado na prática.
Uma chapa tão forte administrativamente não pode se abster pela falta de diálogo e de uma visão verdadeiramente abrangente. A verdadeira união não se constrói com centralização, mas com representatividade, transparência e respeito por todos os convencionais, de norte a sul do estado.
Nota de Esclarecimento: Este artigo é um texto de opinião e reflete exclusivamente a análise do autor, na condição de convencional ativo, amparado pelo direito constitucional à liberdade de expressão e de manifestação do pensamento (Art. 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federal). As críticas aqui formuladas têm caráter estritamente institucional, político-administrativo e propositivo (animus criticandi), baseando-se em fatos públicos e notórios do atual processo eleitoral da CADEESO. Não há, em absoluto, qualquer intenção de ferir a honra, a moral ou a integridade pessoal das respeitáveis lideranças citadas. O único objetivo é fomentar um debate democrático, transparente e construtivo sobre o futuro da nossa convenção. Em respeito ao princípio democrático e ao contraditório, o espaço deste blog encontra-se aberto caso a chapa ou os ministros mencionados desejem apresentar sua resposta ou contraponto.


