Quem carrega o piano
A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel.
Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção: a Secretaria e a Tesouraria. Trata-se de ministros que já estão hierarquicamente subordinados ao presidente na esfera da igreja local. Como garantir a isenção administrativa e a pluralidade de ideias quando as chaves da gestão e das finanças estão centralizadas num único ministério? Corre-se o risco de transformar a convenção estadual numa extensão de uma igreja local.
Outro ponto é a assimetria geográfica: a restrição da diretoria à Grande Vitória. A CADEESO é, na sua essência e no seu estatuto, uma convenção estadual. Onde estão os representantes do Norte, do Noroeste, do Sul e da Região Serrana? O interior não pode ser reduzido a um colégio eleitoral convocado apenas para depositar votos nas urnas. Ele precisa ter voz ativa e assento na mesa de decisões. E hoje, com a consolidação das ferramentas digitais de gestão, a distância geográfica deixou de ser justificativa aceitável para a exclusão.
Sente-se, também, uma lacuna de propostas que contemplem os convencionais que não são pastores presidentes. Os pastores auxiliares e os evangelistas, que carregam o piano do trabalho de base, não podem ser invisibilizados.
Faltam projetos estruturais. Precisamos de um plano de crescimento uniforme, no qual os grandes ministérios fortaleçam, de forma prática e financeira, as congregações menores. Urge uma reforma no modelo de arrecadação, indissociável da criação de um verdadeiro portal de transparência, onde resoluções da mesa e movimentações financeiras sejam publicadas para o escrutínio de todos os convencionais. E jamais podemos silenciar sobre a necessidade de garantias contratuais e institucionais de amparo aos nossos pastores jubilados e às viúvas.
Essa carência de concretude ficou mais evidente com a proposta de gestão para 2026 a 2030, divulgada na última semana antes do pleito. Ao examinarmos os quinze pontos apresentados, encontramos pautas como elevar o perfil da CADEESO no cenário nacional, administração transparente e implantação do Centro de Convenções no Vale Encantado. São projetos institucionais válidos, mas soam como planejamento genérico voltado à cúpula. Prometer transparência não é o mesmo que detalhar os mecanismos de como ela será auditada. Prever integração em grandes eventos nacionais não resolve a dor diária do pastor que dirige uma igreja pequena no interior.
Diante disso, levanto o questionamento central: a CADEESO é uma convenção apenas de pastores presidentes ou de pastores e evangelistas?
A nossa convenção é formada, em esmagadora maioria, por ministros auxiliares. Contudo, ao lançar metas na reta final voltadas quase que exclusivamente para a vitrine externa e para o topo da hierarquia administrativa, fica claro que o ministro auxiliar, que é a base de sustentação do trabalho, continua a não se ver contemplado na prática diária da gestão.
Uma chapa politicamente forte não pode se abster da autocrítica. A verdadeira união institucional não se constrói com centralização de poder, mas com representatividade pulverizada, transparência inegociável e respeito por todos os convencionais, de norte a sul do estado.
Nota de Esclarecimento: Este artigo é um texto de opinião e reflete exclusivamente a análise do autor, na condição de convencional ativo, amparado pelo direito constitucional à liberdade de expressão e de manifestação do pensamento (Art. 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federal). As críticas aqui formuladas têm caráter estritamente institucional, político-administrativo e propositivo (animus criticandi), baseando-se em fatos públicos e notórios do atual processo eleitoral da CADEESO. Não há, em absoluto, qualquer intenção de ferir a honra, a moral ou a integridade pessoal das respeitáveis lideranças citadas. O único objetivo é fomentar um debate democrático, transparente e construtivo sobre o futuro da nossa convenção. Em respeito ao princípio democrático e ao contraditório, o espaço deste blog encontra-se aberto caso a chapa ou os ministros mencionados desejem apresentar sua resposta ou contraponto.


