Artes & Narrativas

Planilhamos os nossos afetos

A chuva espancava a janela com uma cadência que emulava o compasso de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas.

É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas aquele objeto frio que repousa sobre a mesa ou a estrutura maciça que vomita fumaça no horizonte. O erro, que já limitava a visão de intelectuais brilhantes no passado, é confundir a ponta do iceberg com o oceano inteiro.

A máquina é apenas a face visível de algo muito mais vasto e silencioso. A verdadeira força que governa a rua lá embaixo não é o motor a combustão. É aquilo que Jacques Ellul chamou de Técnica.

Penso no homem que observei mais cedo, atrás do balcão do café. Ele não estava simplesmente operando uma máquina de expresso. Havia um método absoluto na forma como os seus punhos se moviam, na precisão com que calculava o tempo da extração e no sorriso milimetricamente ensaiado que oferecia ao cliente no exato instante da entrega do copo.

A Técnica havia se infiltrado na carne. Ela já não dita apenas como operamos engrenagens: dita como trabalhamos, como administramos o tempo, como educamos e, na sua face mais trágica, como nos relacionamos.

Nenhum fato social, humano ou espiritual escapou intacto dessa domesticação. A verdadeira angústia moderna não nasce de estarmos sitiados por aparelhos, mas da constatação silenciosa de que nós mesmos fomos rebaixados a processos que exigem otimização constante. Transformamos a filosofia em cartilhas de autoajuda eficientes. Reduzimos a educação a métricas de desempenho. Planilhamos os nossos afetos.

A Técnica teve o seu berço na máquina. Foi a alavanca, a polia e a engrenagem de bronze que nos injetaram o veneno e o fascínio pelo controle. Mas ela não precisou de muito tempo para se emancipar das suas origens mecânicas, porque logo compreendeu que o material mais maleável e mais fascinante de se moldar não era o ferro.

Éramos nós.

A rua lá embaixo continuava o seu balé roteirizado. Voltei os olhos para dentro, para o silêncio da minha sala, perguntando-me que parte dos meus próprios sonhos, dos meus contos e da minha própria essência ainda não havia sido padronizada pelo imperativo da utilidade.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *