Artes & Narrativas

O Oceano e o Iceberg: A Técnica e a Planilha dos Nossos Afetos

A chuva espancava a janela com uma cadência que, de certa forma, emulava o tique-taque inflexível de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com uma precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas.

É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas aquele objeto frio que repousa sobre a mesa ou a estrutura maciça que vomita fumaça no horizonte. O erro, um erro antigo, que já limitava a visão de brilhantes intelectuais do passado, é confundir a ponta do iceberg com a vastidão do oceano inteiro.

A máquina é apenas a face visível de um monstro muito mais vasto, silencioso e assustador. A verdadeira força matriz que governa a rua lá embaixo não é o motor a combustão; é a Técnica.

Você é uma engrenagem

Penso no homem que observei mais cedo, atrás do balcão do café. Ele não estava simplesmente operando uma máquina de expresso. Havia um método absoluto na forma como os seus punhos se moviam, na precisão com que calculava o tempo da extração e no sorriso milimetricamente ensaiado que oferecia ao cliente no exato instante da entrega do copo. A Técnica havia se infiltrado na carne. Ela já não dita apenas como operamos engrenagens; ela dita como trabalhamos, como administramos o tempo, como educamos e, na sua face mais trágica, como nos relacionamos.

Nenhum fato social, humano ou espiritual conseguiu escapar intacto dessa domesticação. A verdadeira angústia moderna não nasce do fato de estarmos sitiados por aparelhos, mas da constatação silenciosa de que nós mesmos fomos rebaixados a processos que exigem otimização constante. Transformamos a filosofia em cartilhas de autoajuda eficientes; reduzimos a educação a métricas de desempenho implacáveis; planilhamos os nossos afetos.

A Técnica, sem dúvida, teve o seu berço na máquina. Foi a alavanca, a polia e a engrenagem de bronze que nos injetaram o veneno e o fascínio pelo controle. Mas ela não precisou de muito tempo para se emancipar das suas origens mecânicas. A Técnica logo compreendeu que o material mais maleável, complexo e fascinante para se moldar não era o ferro.

Éramos nós.

A rua lá embaixo continuava o seu balé roteirizado por algoritmos invisíveis. Voltei os olhos para dentro, para o silêncio da minha sala, perguntando-me, com um aperto súbito no peito, que parte dos meus próprios sonhos, dos meus próprios contos e da minha própria essência ainda não havia sido padronizada pelo imperativo da utilidade e pela ilusão da eficiência.

Estamos tão obcecados em “otimizar” o nosso tempo, o nosso trabalho e até os nossos relacionamentos que raramente percebemos quando deixamos de ser humanos para nos tornarmos apenas “processos eficientes”. A métrica tomou o lugar do afeto. Você já se pegou agindo no “piloto automático” da técnica, com o sorriso ensaiado e o tempo cronometrado, e sentiu que uma parte da sua espontaneidade estava sendo apagada? O que você faz para não deixar que a sua vida vire uma “planilha”?

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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