Filosofia & Teologia

O Manifesto do Desencanto Biológico

Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou.

Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada da vida, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste recente 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete.

Curioso notar a poesia fúnebre escondida na fonética. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba “Ar”. E, numa simetria que quase parece um recado do destino, as suas sílabas finais ecoam os dois extremos da nossa existência: o “da” de vida e o “te” de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem tanto, mas, para os meus olhos recém-inaugurados, elas já representavam duas histórias inteiras, dois livros quase lidos.

Durante muito tempo, comprei a ideia reconfortante de que a velhice seria o aprimoramento natural, a lapidação do ser humano, a fase em que, limpos das urgências da juventude, nos tornaríamos sábios e, consequentemente, pessoas melhores. Da mesma forma, nutria a certeza inabalável de que, ao cruzar a linha dos 40 anos, seria um homem plenamente bem resolvido e próspero. A realidade, contudo, recusou-se a assinar o meu projeto.

Ao observar de perto a vida e a finitude das pessoas velhas, percebi que, na esmagadora maioria dos casos, o envelhecimento não é potencializado pela sabedoria. Pelo contrário: o que se revela com crueza é a fragilidade, a decomposição contínua. Parece-me um fenômeno muito mais biológico do que espiritual. Na teoria, a força do espírito deveria aumentar à medida que o corpo cede, mas, na prática do leito de morte, será que o vigor da alma não está, no fim das contas, tristemente subordinado à ruína da carne?

A cada dia que passa, sinto que a explicação fria da minha antiga professora de biologia faz um sentido assustador. Quando criança, ao ouvir pela primeira vez o ciclo da vida ser reduzido a um esquema de lousa, fui tomado por desespero. É uma narrativa que subtrai Deus da equação, deixando a realidade nua, seca e determinista: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Fica a impressão incômoda de que o ser humano foi projetado meramente para a manutenção da espécie. E se a reprodução é o resultado do ato sexual, teríamos sido construídos apenas para isso? A constatação obedece a uma lógica implacável: há uma data programada, o tempo é o marcador absoluto, e temos prazo de validade impresso no DNA até mesmo para a procriação. Seria o amor, o afeto e a poesia apenas um pretexto biológico sofisticado para garantir o acasalamento?

A velhice é a sombra da morte cobrindo o invólucro que, muito em breve, ela conhecerá por completo. É a morte ganhando terreno na superfície, ensaiando os seus passos antes de se apoderar do núcleo. Ela vai chegando disfarçada, em formato de vincos, rugas e dores articulares, e hasteia a sua bandeira de domínio absoluto quando embranquece os cabelos. Pintá-los, diante dessa força implacável e corrosiva, é o mesmo que enfeitar sepulcros caiados.

Arlinda. Arlete.

Ar — da vida. Ar — da morte.

Dois livros lidos até a última página, devolvidos à prateleira com a serenidade de quem cumpriu o que veio cumprir. E eu, aos 41 anos, seguro o meu exemplar ainda aberto, incapaz de decidir se o que sinto é gratidão por ainda estar no meio da história ou terror de já saber como ela termina.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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