Filosofia & Teologia

Levantou-se para fugir

A ordem divina em Jonas 1.2 é mais que uma instrução de postura. Deus convoca o profeta para a urgência de Nínive, e o clamor exigido não é apenas juízo: é convite ao arrependimento diante de uma maldade que subiu. Em Sua santidade, Deus não é observador passivo. Vê a corrupção como ferida viva, e ainda assim prefere o envio do profeta à execução da sentença.

Contudo, Jonas responde com obediência cínica. Ele se levanta, mas para fugir. É a meia obediência, que nada mais é do que rebeldia fantasiada de movimento.

E aqui o capítulo revela a sua arquitetura. O homem que recebeu ordem de se levantar passa o texto inteiro descendo. Jonas desce a Jope. Desce ao navio. Desce ao porão, onde dorme. E, no ventre do peixe, dirá que desceu até aos fundamentos dos montes. O mesmo verbo marca cada etapa da fuga, até o fundo literal do mar.

Para sustentar essa descida, ele paga a passagem. A desobediência nunca é gratuita: cobra um preço que vai muito além do dinheiro.

O desvio não afeta apenas o profeta. A tempestade sacode o barco e coloca em risco passageiros inocentes. Enquanto os marinheiros aliviam o peso lançando cargas ao mar, o verdadeiro fardo permanece oculto no porão, dormindo. Jonas busca o entorpecimento, um sono profundo que é tentativa de amordaçar a própria consciência.

É no auge da tormenta que surge a voz do mestre do navio, um estranho usado por Deus para despertar o profeta adormecido: que tens, dorminhoco? Levanta-te. O chamado persegue o homem até o refúgio mais sombrio da sua alma.

E Jonas finalmente compreende que não pode se erguer sozinho. Pede: levantai-me e lançai-me ao mar. Há momentos em que a desobediência nos drena tanto a força que precisamos das circunstâncias para sermos empurrados ao sacrifício que deveríamos ter abraçado por vontade própria.

Repare, porém, no que os marinheiros fazem. Eles resistem. Remam com força para voltar à terra e só entregam Jonas depois de orar, pedindo que aquele sangue não lhes seja imputado. Os pagãos daquele navio tratam a vida do profeta com mais reverência do que ele próprio tratou o seu chamado.

Só então o mar se aquieta.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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