Pólis & Gestão

Autoridade de crachá

Nas relações institucionais marcadas por forte assimetria de poder, surgem dinâmicas que subvertem o propósito central da gestão. Quando um chefe opta por desvalorizar o trabalho de um subordinado em público, o ato revela infinitamente mais sobre o caráter de quem fala do que sobre a competência de quem ouve. Não é um deslize de comunicação: é o reflexo de como a autoridade, quando desprovida de ética, converte-se em ferramenta de manipulação.

As relações de trabalho intensificam a vulnerabilidade das pessoas, porque colocam em jogo a autoimagem, o respeito e a sobrevivência profissional. E quando um chefe se permite ridicularizar alguém sob a bandeira da transparência, ele aciona uma das facetas mais perversas do assédio moral. A mensagem implícita é: eu cuido de você, e o preço dessa proteção é o meu direito de expor as suas falhas.

Essa atitude fabrica dependência. O subordinado, na ânsia por aceitação, aprisiona-se em um ciclo de dúvida e culpa. A suposta proteção é uma cortina de fumaça que ampara a vaidade e o desejo de domínio de quem manda.

Sob o pretexto de preparar o funcionário para o mundo real, o mau gestor reforça a tese de que é preciso submeter-se ao linchamento público da própria performance para ser aceito. É a mentira corporativa de que ser humilhado faz parte do crescimento. O resultado prático dessa gestão pelo medo é uma equipe acovardada, insegura e paralisada, onde o respeito cede espaço à submissão silenciosa.

O verdadeiro líder sabe que críticas construtivas não habitam palanques: pertencem aos bastidores. Ele reconhece que a fragilidade momentânea de um membro da equipe jamais deve ser instrumentalizada para inflar o ego de quem está no comando. Manipular a insegurança alheia em benefício próprio não é liderança, é abuso disfarçado. É o exercício de uma autoridade de crachá, que projeta força apenas para mascarar a própria incompetência emocional.

A proteção genuína que uma coordenação deve oferecer nasce do incentivo estruturado e do apoio constante. Corrigir falhas de forma discreta é a expressão máxima da sabedoria administrativa, e líderes que deixam legado criam ambientes onde o erro é métrica de aprendizado.

O chefe que precisa ridicularizar para afirmar o seu poder já abdicou da liderança. Restou-lhe apenas o cargo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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