Uma vírgula de Deus
Planejo. Estudo. Grito. Vou.
Cada ação é um passo calculado, um avanço cego em direção ao que eu imagino ser a linha de chegada. Mas não alcanço o porto que desejo. O meu olhar perde-se na neblina entre os sonhos concretos e as miragens. Cada movimento que executo é um eco da minha ambição, uma busca que pulsa nas veias e insiste em dissolver-se ao menor toque.
Sonho. Olho. Fito. Avanço.
Em cada nova tentativa acende-se uma faísca de esperança, uma explosão breve de fé na quebra do impossível. Mas a realidade impõe-se como um muro de concreto.
Não realizo.
Persisto. Insisto. Não desisto. Lanço-me com fervor ao campo dos meus anseios. Trago no peito uma força teimosa, uma máquina que se recusa a desligar. Contudo, a frustração espreita cada vírgula do meu esforço, e no fundo do estômago o desespero ameaça brotar. É como marchar por um deserto em direção a um horizonte que recua a cada passo, como se a própria geografia do destino brincasse com as minhas pernas, desviando as rotas e dissolvendo os mapas. O cume é uma promessa que sinto roçar nas pontas dos dedos e que permanece fora de alcance.
Então, encurralado pela exaustão, eu questiono: será uma falha minha ou uma vírgula de Deus? Estarei lutando contra a direção do vento ou contra desígnios superiores? Será o mundo que se recusa a curvar-se às minhas exigências, ou serei eu quem insiste em carregar ilusões que o tempo já tentou dissipar?
A linha que separa a ambição legítima da teimosia inútil talvez seja fina demais para a vista humana.


