Fechar as portas de fora
O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro.
A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio.
Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão, mas a integração.
Talvez o tempo não tenha o rosto de um carrasco, e sim a feição de um velho que ensina. Ele revela as suas lições na arquitetura de cada estação e na poeira de cada memória arquivada.
O inverno não é apenas o frio ou a ausência de luz. É a prova de que há um momento exato para tudo.


