Estou vivendo um inferno
Já tentou dimensionar o céu? É um exercício que esmaga qualquer vocabulário. Como poderia o olho humano, viciado na cronologia e na dúvida, vislumbrar uma beleza que não cabe na nossa geometria? O céu não é um latifúndio de nuvens nem um auditório grandioso: é o estado em que a presença de Deus reina sem a interferência das sombras. É a dimensão onde o amor deixa de ser apenas um sentimento e se torna a própria matéria-prima da realidade.
Em contrapartida, é curioso, e até trágico, ouvir alguém esbravejar diante de uma crise: “estou vivendo um inferno”. Como se a perdição pudesse ser reduzida a um contratempo. O inferno verdadeiro transcende o tormento físico. Ele é ausência: o vácuo de propósito, o exílio da luz, a falência da esperança. O verdadeiro abismo não é a falta de prazer, mas a danação de uma alma que jamais encontra repouso, vagando em um labirinto escuro onde a saída foi murada.
Colecionar prazeres, acumular fama e empilhar dinheiro não nos aproxima do céu, e também não define o inferno. O sucesso secular é apenas um anestésico. O céu inaugura-se de forma silenciosa, na estreiteza do caminho que nos empurra para Deus. E essa trilha quase nunca é asfaltada com facilidades: é pavimentada com renúncias, regada a lágrimas e cravada de dores agudas. Essa dor não é punitiva. É a marca de quem decidiu amar algo maior do que o próprio reflexo no espelho.
Para suportar a aspereza dessa travessia, a força humana é insuficiente. Habitar na presença de Deus é a certeza de que não lutamos sozinhos quando a trincheira é bombardeada. O pânico, por sua vez, atua como sequestrador da paz. O adversário opera como um ladrão silencioso: o seu objetivo primário não é necessariamente nos fazer pecar de forma escandalosa, mas nos desarmar, para que sejamos reféns da própria fragilidade. Quando o pânico substitui a fé, a alma desidrata.
Onde o amor autêntico se estabelece, o pânico perde o comando. Quem ama não fica imune ao sofrimento, mas aprende a extrair vida da própria ferida, dominando a arte da paciência. O amor é um campo de treinamento, uma entrega contínua que nos molda, golpe após golpe.
Portanto, que a nossa resposta às ofertas de plástico do mundo seja uma recusa. Cada sim aos atalhos do século é um passo em direção ao labirinto do vazio.


