Filosofia & Teologia

Predileção pelos terrenos estéreis

A espera é um território misterioso e frequentemente árido, onde as grandes almas caminham em silêncio, sustentadas por uma fé que se recusa a estiolar. Há quem aguarde por um breve instante e quem suporte a latência por décadas, guardando no peito a certeza de que o relógio divino não sofre de atrasos. Em um mundo viciado no imediatismo, esperar é uma disciplina que poucos solos conseguem suportar sem rachar.

Ao longo da história sagrada, inúmeras mulheres conheceram intimamente essa geografia da esterilidade. Abraçaram o compasso de espera mesmo quando a terra de suas vidas parecia irremediavelmente morta. E tornaram-se campos que, contrariando toda a lógica da biologia, serviram de berço para o impossível. Em um coração que sabe aguardar, cada instante é uma semente lançada. Mas é Deus quem detém a soberania sobre a estação da colheita.

As sementes são promessas encapsuladas. E o melhor dos grãos exige uma terra disposta a romper a casca e gerar vida. Somos canteiros expostos, que recebem enxertos todos os dias: algumas sementes carregam luz, outras são ervas daninhas. A fertilidade não depende apenas da qualidade daquilo que é plantado, mas da nossa abertura à ação do Cultivador.

Deus nutre uma predileção poética pelos terrenos estéreis. Inclina-se sobre os corações que reconhecem a própria falência e que, em vez de capitularem diante da aridez, entregam-se. Onde os olhos humanos atestam apenas o fracasso, Deus enxerga um laboratório sagrado.

Depois que as sementes repousam na terra, cabe a nós o ofício silencioso da vigilância: regar e proteger o solo para que o broto seja de graça, e não de escuridão. É a paciência do lavrador de que fala Tiago, que aguarda o precioso fruto da terra até que venham a chuva temporã e a serôdia.

Hoje, dispo-me das metáforas e trago o meu próprio clamor:

Senhor, que a Tua misericórdia me alcance. Não carrego a pretensão da perfeição; sou apenas um homem tateando em busca do Teu amor, ansiando viver para os Teus propósitos, ainda que eu tropece tantas vezes na travessia. Que a Tua mão repouse sobre mim e me guie, mesmo nos dias em que a terra da minha alma parecer um deserto inabitável. Ilumina-me, cura as minhas fraturas e transforma-me.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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