Não sangrar no esquecimento
Gosto de pensar que Jesus me ama. Diante do peso dos dias e da complexidade da nossa própria mente, só essa certeza já atua como um alívio imensurável, uma âncora de sanidade afundada no meio das nossas turbulências. Sentir-se alvo do afeto divino é como abrir uma janela em um quarto escuro, não porque a luz resolve os dilemas que estão no chão, mas porque ela nos lembra de que não estamos abandonados no escuro.
Há um mistério incompreensível na ideia de que a primeira faísca de vida em nós é fruto de um amor que nos antecede. Se a narrativa do apóstolo João nos lembra que Deus amou o mundo de tal maneira, é porque a medida desse amor exigiu sacrifício. É o amor do Crucificado, um afeto que vai às últimas consequências, que rasga a eternidade para nos tocar na nossa fragilidade mais humana.
Saber-se amado por Deus é o alicerce definitivo da alma. O mundo pode nos oferecer admiração, respeito e paixão, mas apenas a aceitação divina preenche aquele vazio que todos carregamos. Quem compreende a profundidade de ter sido amado com um amor eterno, um amor que não recua diante das nossas misérias, finalmente aprende a amar os outros, porque o amor verdadeiro exige esvaziamento.
Muitas vezes a vitória parece distante e a vida insiste em nos cobrar pedágios caros. O amor de Cristo não nos blinda contra a dor, mas nos garante uma companhia invencível dentro dela. É a paz de quem se sabe amparado, conhecido pelo nome e, apesar de todas as falhas, profundamente desejado.
Deixar que esse amor encontre morada no peito é parar de lutar sozinho. É a certeza de não sangrar no esquecimento.


