Artes & Narrativas

Cercar-se de palhaços

Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.”

Ele mesmo parecia ser uma dessas figuras que carregam alegria consigo. Como o palhaço daquele circo distante, tinha uma habilidade incomum de arrancar um riso genuíno até dos momentos mais sombrios.

O sorriso é uma atitude perante a vida, uma virtude que revela um espírito que, sem fugir da realidade, a encara com dignidade e coragem. Penso em figuras como o Dalai Lama, cuja paz parece brilhar em cada sorriso. Será essa serenidade genuína ou uma dissimulação hábil? O sorriso constante poderia ser uma armadura?

De qualquer modo, é o contrário do rosto fechado, sombrio, que frequentemente revela o que Fábio chamava de “síndrome da vítima”: o hábito de culpar o mundo, a vida, os outros, como se tudo fosse uma trama criada para nos prejudicar. Para essas pessoas, o mundo é o algoz, e o sorriso parece um intruso.

Mas o sorriso é uma escolha consciente, um esforço cultivado. Poucos nascem com uma alma que sorri naturalmente. Para nós, seres comuns, sorrir é uma tarefa cotidiana, um exercício para ver a vida de um ângulo mais ameno.

Entre os livros de Fábio, havia uma passagem que ele sempre destacava para mim. Sêneca conta que Zenão de Cítio, ao saber que o navio com todos os seus bens havia naufragado, disse que a sorte queria que ele tivesse mais liberdade para filosofar. Fábio lia com um lápis e uma caneta ao lado, sublinhando, anotando, saboreando cada lição. Quantas vezes tentei imitá-lo, mas falhei no método, em minha impaciência.

Entre os conselhos dele, o de cercar-se de palhaços foi um dos mais valiosos. Mas com o tempo aprendi uma coisa a mais: é preciso aprender a sorrir também, a ser um palhaço para o outro. Receber risos é bonito, mas dá-los é ainda mais nobre.

Você sabe que uma relação está condenada quando se esgota a capacidade de rir juntos.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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