Artes & Narrativas

A Coragem Tardia: O Rascunho do que Não Ousei

Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta.

Sou a presença oculta no peito, não a ausência, mas o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento.

Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda infantis, sem perceber que, muitas vezes, o inalcançável é apenas a memória daquilo que não tivemos a coragem de realizar.

Fui o homem que silenciou. Que engoliu palavras, cartas não enviadas e gestos inacabados. Que passou décadas calado, não por falta de voz, mas por excesso de temor. Tive pavor dos julgamentos, das opiniões oblíquas de quem não escreve, mas julga; de quem não ousa, mas zomba.

Fui o que empilhou livros e acumulou saberes como quem constrói uma fortaleza. E lá de dentro, intocável, vi o tempo passar, o cabelo cair e a energia esgotar, sem que todo aquele aprendizado florescesse na vida real. Fui o que teve fome, mas recusou o banquete por medo de não ser digno. O que recebeu um presente selado e, por insegurança, não ousou abrir, apenas para ver outra mão violar o selo daquilo que, um dia, foi preparado para mim.

Fui, sobretudo, aquele que tentou negociar com a vida. Que acreditou ser possível ser extraordinário sem antes aceitar o peso de ser apenas humano.

E aqui estou. Um rascunho de passado e uma promessa não cumprida. Mas debaixo dos escombros ainda pulsa uma fagulha: a coragem tardia de quem, finalmente, decidiu aprender a viver sem o medo paralisante de estar vivo.

Muitas vezes, a nossa maior tragédia não é o que tentamos e deu errado, mas aquilo que deixamos de viver por medo do julgamento alheio. Qual foi o "presente selado" que a vida te deu e você, por medo de não ser digno, deixou outra pessoa abrir? Compartilhe nos comentários.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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