Eu sou o que não disse
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta.
Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento.
Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda infantis, sem perceber que, muitas vezes, o inalcançável é apenas a memória daquilo que não tivemos a coragem de realizar.
Fui o homem que silenciou. Que engoliu palavras, cartas não enviadas e gestos inacabados. Que passou décadas calado, não por falta de voz, mas por excesso de temor.
Fui o que empilhou livros e acumulou saberes como quem constrói uma fortaleza. E lá de dentro, intocável, vi o tempo passar, o cabelo cair e a energia esgotar, sem que todo aquele aprendizado florescesse na vida real. Fui o que teve fome, mas recusou o banquete por medo de não ser digno. O que recebeu um presente selado e, por insegurança, não ousou abrir, apenas para ver outra mão violar o selo daquilo que, um dia, foi preparado para mim.
Fui, sobretudo, aquele que tentou negociar com a vida. Que acreditou ser possível ser extraordinário sem antes aceitar o peso de ser apenas humano.
E aqui estou. Um rascunho de passado e uma promessa não cumprida.


