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A Métrica da Cegueira

O escritório de Inácio cheirava a café velho e papel impresso. Sobre a sua mesa, relatórios e mais relatórios formavam torres que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele era o Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo seus superiores, era o mais importante da nação.

Para Inácio e seus colegas, o mundo era simples: o “progresso técnico” era uma linha em um gráfico que devia apontar sempre para cima. E como se mede isso? Com toneladas de aço produzidas, sacas de grãos colhidas e a velocidade das linhas de montagem.

Naquela noite chuvosa, Inácio revisava os escritos de um de seus teóricos favoritos, um homem chamado Friedmann. O autor começava seu tratado com promessas grandiosas sobre a técnica moldando o espírito humano, mas, já no segundo parágrafo, Inácio notou o truque. Sem nenhum aviso, Friedmann reduzia tudo, toda a complexidade da invenção humana, ao nível da produção econômica. Era confortável. Era seguro.

A Métrica da Cegueira

“Acrobacias linguísticas”, murmurou Inácio para si mesmo, lembrando-se das palavras de um velho professor. Era uma inanição, uma forma de esvaziar o mundo para que ele coubesse numa planilha.

Ele recostou-se na cadeira e olhou pela janela do décimo andar. Lá embaixo, a cidade pulsava. Milhares de faróis vermelhos e brancos formavam rios de metal nas avenidas. Eram os automóveis.

De repente, uma inquietação tomou conta de Inácio. Ele pegou sua caneta e começou a rabiscar na margem do relatório de Friedmann. Os cientistas, os economistas, os sociólogos de sua época haviam dissecado até a última engrenagem a relação entre o operário e a máquina industrial. Havia teses sobre o cansaço mecânico, o estresse econômico da fábrica, a psicologia da linha de montagem. Eles sabiam tudo sobre a produção.

Mas e o resto?

O telefone na mesa de Inácio tocou. Ele olhou para o aparelho preto, com seu disco numerado, zumbindo como um inseto exigente. Ele não atendeu.

“O que sabemos sobre isso?”, pensou. O que a ciência sabia sobre a relação do homem com o telefone que o interrompe na calada da noite? O que sabíamos sobre a relação do homem com o rádio, que sussurrava ideias em seus ouvidos enquanto ele lavava a louça? O que sabíamos sobre o homem e o automóvel, aquela caixa de metal que havia reconfigurado cidades inteiras, destruído florestas e alterado a própria noção de distância e tempo?

Absolutamente nada.

Inácio percebeu, com um frio na espinha, o motivo daquela limitação. Era um otimismo tácito, uma necessidade desesperada de acreditar que o progresso técnico era incondicionalmente válido. Se eles medissem apenas a produção de bens, o progresso seria sempre positivo, sempre glorioso. A fábrica produz mais sapatos hoje do que ontem. Vitória!

Mas se eles ousassem medir os efeitos sociológicos do telefone, do rádio, da televisão, do automóvel… a equação se tornaria sombria. A ciência, covarde diante do imensurável, recuava inconscientemente para a esfera do que já era conhecido. Limitava o problema para não ter que lidar com a resposta.

O telefone parou de tocar. O silêncio voltou à sala, quebrado apenas pelo som da chuva batendo no vidro. Inácio olhou para os gráficos de produtividade econômica espalhados por sua mesa. Pela primeira vez em sua vida, aquelas linhas ascendentes não lhe pareceram um símbolo de vitória humana. Pareciam as grades de uma prisão que eles mesmos haviam construído, enquanto sorriam, cegos, comemorando o quão eficientemente haviam forjado as próprias correntes.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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