Enquanto houver poeira
Vinte anos.
Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como uma escada escura. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo.
Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus cadernos de memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do silício. Enquanto a sociedade reduzia o milagre do progresso humano a pilhas de relatórios e a uma linha ascendente num gráfico, eu usei as palavras como resistência.
Neste intervalo, não documentei apenas ideias soltas. Documentei a carne e o sangue da existência. Registrei a dor visceral que atravessou a minha própria sala, o eco ensurdecedor que a morte deixa nas paredes de casa e a inevitável burocracia emocional que nos alcança depois de assinarmos os papéis amarelos do luto. Escrevi sobre o peso do quase e sobre o espinho cravado na garganta por tudo aquilo que não pudemos fazer a tempo por quem amávamos.
E fiz isso por ter aprendido, a duras penas, que a angústia só se torna suportável quando temos a coragem de lhe dar contornos e nomes.
Caminhei, muitas vezes, encolhido, tentando ocupar menos espaço, como quem busca o benefício covarde da invisibilidade. Vi o tempo arrastar pessoas queridas e jovens que, como uma chuva temporã, molharam a terra e logo evaporaram. E, no meio dessas intempéries, atuei na fronteira: cruzando o rigor acadêmico com a crueza da vivência prática, entre o ofício de professor, de administrador e de ministro do Evangelho.
No fundo, percebo hoje que todos os textos que publiquei desde 2006 foram tentativas obstinadas de responder, ou pelo menos de ganhar fôlego para suportar, as três perguntas que ecoam no silêncio de qualquer alma.
De onde vim? Por que nasci? Para onde vou?
Ao olhar para este arquivo de duas décadas, compreendo que a literatura nunca foi, para mim, um fim em si mesma. Ela é uma arqueologia da graça. É o meu lembrete contínuo de que a razão humana possui limites esmagadores e de que, diante do absurdo da vida, dependemos inteiramente da luz do Eterno.
Se há uma síntese que esses vinte anos de palavras me entregam, é a aceitação pacífica da minha própria natureza: sou, e continuarei sendo, apenas um fragmento de eternidade encarnado em poeira.
E, enquanto houver poeira, eu continuarei a escrever.


