Filosofia & Teologia

A Arqueologia do Eu: Tinta Azul e Certezas Oxidadas

Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros.

Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia ou da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.”

É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “Pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma identidade. Quem era o Tiago daquele meio de julho, há treze anos? Ao assinar um livro, especialmente um que promete vitórias e superações, não estamos apenas reivindicando a posse física. Estamos, no fundo, tentando nos apropriar da esperança nele contida. Queremos ser donos das palavras e das promessas que elas carregam.

Em 2011, buscar uma “palavra de vitória” talvez fosse o reflexo de anseios urgentes, da busca natural por respostas prontas e conforto diante da vastidão incerta da existência. O texto ali propunha uma narrativa direta, um caminho de certezas dogmáticas onde a dúvida, provavelmente, mal tinha espaço para respirar. Era uma época que pedia afirmações absolutas.

Mas o tempo é um cronista implacável que reescreve constantemente os nossos próprios sumários. Os anos se acumulam, a tinta azul seca e se fixa nas fibras do papel, enquanto nós mudamos de pele. Aquele leitor continuou sua marcha. Com o amadurecimento, o perigo da “história única” torna-se evidente. As certezas fáceis dão lugar a perguntas mais densas e à compreensão de que a vida, a sociedade e o pensamento formam um mosaico complexo que não cabe em manuais de instruções.

Aquele volume, repousando hoje nas mãos do autor atual, já não é um guia. Transformou-se em documento de arquivo, uma arqueologia do próprio eu. É o registro de que, para chegar à densidade dos questionamentos atuais e às narrativas que hoje exigem um olhar mais agudo sobre a natureza humana, foi preciso caminhar por aquelas antigas páginas.

O papel ainda anuncia, irredutível, que a obra “Pertence a Tiago”. Mas a verdade poética daquela página é outra: é o Tiago de 2011 quem agora pertence a um capítulo distante, guardado com carinho na biografia do Tiago de hoje. Uma trajetória que não se constrói apenas com “palavras de vitória”, mas com todas as falhas, dúvidas e contradições que nos tornam, afinal, lindamente complexos.

Muitas vezes, as provas mais contundentes da nossa evolução não estão nos diplomas ou conquistas, mas no rastro de tinta azul que deixamos nas páginas de um livro antigo. Encontrar uma caligrafia sua de dez ou quinze anos atrás é como receber a visita de um estranho que, por acaso, habita a sua própria biografia. Você já viveu esse “choque silencioso” de reencontrar uma versão antiga de si mesmo e perceber o quanto a vida reescreveu os seus sumários? O espaço dos comentários é o nosso arquivo de histórias.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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