O Mapa no Sofá Vermelho
Há uma forma de espera que não se admite.
A espera que se disfarça de presença, o corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil.
Ela me influenciava. Eu sabia disso.
Saber não ajudava.
O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho naquela pequena sala que as telhas de amianto aqueciam mais do que o necessário e o chão amarelão resfriava menos do que o suficiente. E então os meus olhos fizeram o que os olhos fazem quando não estão sendo supervisionados pela razão: escorreram. Dos pés à cabeça. Devagar, com a atenção cartográfica de quem estuda um território que não lhe pertence mas que conhece de memória.
Viajei por aquele mapa sem precisar pegar a estrada.
Era suficiente. Quase suficiente. Porque o mapa estava ocupado, e o que o ocupava não era eu. Era um livro. Daqueles de romance que se comprava em banca de jornal, com capa plastificada e letras garrafais, autor desconhecido, história previsível. O tipo de livro que a literatura séria ignora e que as pessoas leem com uma felicidade que a literatura séria nunca conseguiu explicar.
Aquele livro estava fazendo ela rir.
E aí começou o problema.
Não o livro em si, o livro eu poderia suportar. O problema era o riso. Esse riso específico que ela dava, os olhos fitos nas páginas, completamente alheia à minha existência na mesma sala, completamente entregue àquelas letras organizadas que juntas contavam uma história que não era minha, protagonizada por personagens que não era eu, escrita por alguém cujo nome ela provavelmente nem sabia.
E mesmo assim, esse alguém anônimo estava conseguindo o que eu queria.
O ciúme é uma dor sem endereço fixo. Você o sente mas não consegue localizar, tente mapear, coloque a mão onde dói, e a mão não encontra nada. Não é o estômago, não é o peito, não é a garganta, é tudo isso ao mesmo tempo e nenhum lugar específico. É um mal-estar geográfico, uma dor que existe nos limites do corpo sem pertencer a nenhuma parte dele. Estranha e precisa ao mesmo tempo. Invisível e inegável.
Ela não se contentou em me corroer por dentro.
Antes que eu pudesse supervisioná-la, já havia saído pela boca: não sei que graça tem ficar lendo e rindo. Ler livro é estático.
Ela não levantou os olhos das páginas.
Disse, com a tranquilidade de quem está muito ocupada sendo feliz para se distrair com provocações: ler é muito divertido.
E voltou para o livro.
Fiquei ali com a frase no ar, a minha frase, não a dela, sem destinatário, sem efeito, sem a atenção que havia sido projetada para capturar. O livro havia vencido o round sem sequer perceber que havia um round. Essa é a humilhação específica de perder para um objeto inanimado: o objeto não sabe que ganhou.
Pensei no filme.
Ver um filme era diferente, era a possibilidade da união sem exigir a palavra. Dois corpos no mesmo espaço, entregues à mesma experiência, respirando no mesmo ritmo sem precisar negociar o silêncio. O filme partilhava. O livro, não. O livro era egoísta, ele não dividía, não convidava, não abria espaço para um segundo par de olhos. Ele a levava para dentro de si e fechava a porta.
E eu ficava do lado de fora.
Mas havia outra camada nessa conclusão, uma que o ciúme me revelou sem querer: o que eu chamava de egoísmo do livro era, na verdade, o egoísmo meu. Não queria que ela dividisse a atenção com o livro pela mesma razão que não queria que dividisse com mais ninguém. Não era sobre o livro. Era sobre não querer compartilhá-la com qualquer coisa que não fosse eu. O livro era apenas o concorrente mais recente, e o mais improvável.
O mapa continuava no sofá vermelho.
Lendo. Rindo. Completamente inteiro sem precisar de mim.
E eu mapeando o mapa, querendo enrolá-lo só para mim, guardá-lo, torná-lo exclusivamente meu, enquanto o livro fazia, com páginas e tinta, o que eu não havia ainda aprendido a fazer: capturar a atenção de alguém sem pedir, sem competir, sem transformar o próprio desejo numa exigência velada.
O livro venceu. Pelo menos até alguns minutos depois.
E lá, naquela sala pequena e quente, debaixo das telhas de amianto e em cima do chão amarelão, fiz a pergunta que o orgulho finalmente permitiu, baixinho, só para mim, sem testemunha:
Será que ler é bom mesmo?
A resposta chegou anos depois.
Quando comecei a escrever.


